Não há Planeta B

A palavra de ordem “Não há Planeta B”, tem vindo a ser usada por grupos ecologistas como alerta para os perigos ambientais com que nos defrontamos. É bem-intencionada, mas tem um erro. O risco não é para o planeta que mesmo com todas as tropelias que nós humanos fazemos, vai continuar, o risco é para a nossa espécie e a nossa civilização. 

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Os recentes temporais e a onda de devastação que deixaram, chamaram, mais uma vez a atenção para os fenómenos climáticos. Eventos como estes estão a tornar-se mais frequentes e mais fortes.

O clima, que é um assunto muito complexo, está a mudar. A temperatura do planeta está a subir. Ao longo de milhões de anos, as subidas e descidas foram muitas e, quando muito grandes tiveram consequências devastadoras. Todos ouvimos falar na Idade do Gelo, já em tempos históricos houve uma mini idade do gelo. A diferença está na velocidade da subida e na sua origem humana.

Subir ou descer a temperatura faz mudar os regimes de ventos, de correntes marinhas. A subida faz derreter as calotes polares e aumentar o nível das águas do mar. Esta subida seria (será?) devastadora, uma boa parte da população mundial vive junto ao mar. O concelho de Almada tem bons exemplos. Costa da Caparica, Trafaria, Cova da Piedade, Cacilhas, Porto Brandão, Cova do Vapor, estão na linha da frente. 

A subida da temperatura nos últimos 200 anos (que correspondem à revolução industrial e a um grande crescimento da população humana) é notória. Estamos perto de atingir um aumento de 1,5ºC que será o limiar de consequências muito graves para a vida no planeta. Se chegarmos aos 3ºC poderão estar em causa 70% das espécies de animais e plantas.

Há quem conteste que esta subida se deva à atividade humana, mas a sua coincidência e rapidez, desde que processos industriais com recurso a combustíveis fosseis enviam enormes quantidades de gazes para a atmosfera, aponta no sentido da atividade humana. Simplificando, esses gazes fazem uma barreira que impede a dissipação de calor atmosférico. Solução (mais fácil de dizer do que fazer, claro), reduzir as emissões de gazes. Energia limpa, menos transporte individual, redução do desperdício em coisas como produtos descartáveis. Nada fácil mesmo, todo um sistema vive dessa irracionalidade e desse desperdício, e é um sistema poderoso. Todas as indústrias para isso contribuem, mas vale a pena destacar a automóvel e a petrolífera. Muito se tem discutido a validade ambiental das viaturas elétricas, mas é certo que também têm a sua pegada ambiental. Se falamos num monstro de 2500 kg com o dobro da potência de um autocarro, essa pegada não será pequena. 

Como se pode ver com a mudança para carros elétricos, não será o chamado “capitalismo verde” a alterar significativamente as coisas. Continuar com novos produtos, supostamente mais ecológicos, mas mantendo a mesma lógica de desperdício não é a solução. É claro que os três R e os comportamentos individuais podem ter influência, mas o que precisamos é mais do que isso.

Ver que em Almada existem movimentos para facilitar o transporte individual e outros para impedir o transporte coletivo, não contribuem para a confiança nos comportamentos individuais e menos ainda nas estruturas oficiais. 

Há risco para a espécie humana, mas também para outras espécies. A Terra passou por vários momentos de extinção em massa, o mais conhecido e recente foi há 65 milhões de anos quando um meteorito colidiu com a Terra, provocando enormes alterações no clima e levando à extinção dos dinossauros.

Podemos estar perante mais um desses fenómenos, o ritmo a que se extinguem espécies de animais e plantas é muito elevado, com espécies a extinguir-se todos os dias, a diferença é que pode ser provocado pela ação humana, e como tal podemos evitá-lo. Há quem defenda que o ser humano, muito versátil e inteligente, pode escapar a essa extinção. Nada a dizer sobre a versatilidade, mas, em relação à forma como se tem lidado com este problema, coloca-se em causa a inteligência. De qualquer forma, mesmo que o ser humano sobreviva, não o fará com esta forma de civilização, todos se lembram da série de filmes Mad Max. O futuro pode ser algo semelhante a isso. Os sobreviventes a digladiar-se pelos restos da antiga civilização, enquanto duram.

Esgotamento de recursos, alterações climáticas, poluição, redução da biodiversidade. A famosa ilha de lixo plástico do Pacifico, a sobrepesca, a morte dos corais pelo aumento da temperatura. O mar também não está a salvo. 

Estes são perigos lentos, medem-se em anos ou mesmo em décadas, porém há outro que espreita a humanidade desde 1945, o nuclear. As duas maiores potências nucleares dispõem de armamento suficiente para se destruírem uma à outra, o resto do mundo iria por arrasto. Durante décadas foi mantido um equilíbrio do terror. Entre situações mais tensas e outras mais desanuviadas a coisa foi funcionando. Porém há quatro anos a Rússia fez o que eu não achava possível, invadiu a Ucrânia, aumentando as tensões para níveis impensáveis. As duas maiores potências nucleares são hoje dirigidas por loucos fascistas. O risco é muito grande. 

O nuclear para fins pacíficos também tem tido os seus custos, o mais famoso acidente, Chernobyl, tornou uma vasta área impossível de habitar por humanos, mas animais e plantas têm prosperado, às vezes com alterações curiosas. Um estudo recente constatava que os lobos desse território passaram por mutações que os tornaram mais resistentes ao cancro. 

O planeta sobreviverá, nós humanos só o faremos se tomarmos consciência e mudarmos de caminho. Ver uma piscina a desabar sobre S. João da Caparica é um sinal, temos de ser capazes de o ler. 

Nuno Pinheiro

Doutorado em História Moderna e Contemporânea, Investigador associado do CIES/ ISCTE, almadense

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