O pico da Saúde
No final dos anos 70, houve dois ou três anos em que tudo se alinhou: o fundo de areia, o swell, a maré e o vento. Foi esse equilíbrio raro que fez nascer, mesmo em frente à Praia da Saúde, um dos melhores picos da Costa da Caparica.
Para quem não é do meio: um pico, no surf, é o ponto onde a ondulação encontra o fundo de forma a gerar uma onda bem formada e consistente. Ao contrário de uma onda que quebra apenas para um lado, um pico verdadeiro gera uma direita e uma esquerda a partir do mesmo ponto de quebra — ou seja, permite surfar em ambas as direções com qualidade. Mas não é um lugar fixo. Depende de muitas variáveis — e, na Costa, onde os fundos mudam quase com as marés, um pico pode surgir num verão e desaparecer no inverno seguinte. O da Saúde, nesses anos, era consistente, potente e desafiante. Um presente da natureza — com prazo de validade, como todos.
Foi isso que atraiu o grupo de surfistas da Costa, que começou a descer para ali com regularidade. Alguns ficavam dias seguidos. Dormiam debaixo dos palheiros — as típicas casas de madeira sobre estacas que já existiam na altura e que ainda hoje se vêem nas dunas. As capas das pranchas faziam de saco-cama, o peixe grelhava-se ali mesmo, e as noites passavam-se em torno de conversas, fogueiras e planos para a manhã seguinte — que podiam incluir entrar na água com nevoeiro cerrado, surfar ao pôr do sol ou ao nascer do dia, ou simplesmente esperar que o vento virasse offshore.


