O pico da Saúde

No final dos anos 70, houve dois ou três anos em que tudo se alinhou: o fundo de areia, o swell, a maré e o vento. Foi esse equilíbrio raro que fez nascer, mesmo em frente à Praia da Saúde, um dos melhores picos da Costa da Caparica.

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Para quem não é do meio: um pico, no surf, é o ponto onde a ondulação encontra o fundo de forma a gerar uma onda bem formada e consistente. Ao contrário de uma onda que quebra apenas para um lado, um pico verdadeiro gera uma direita e uma esquerda a partir do mesmo ponto de quebra — ou seja, permite surfar em ambas as direções com qualidade. Mas não é um lugar fixo. Depende de muitas variáveis — e, na Costa, onde os fundos mudam quase com as marés, um pico pode surgir num verão e desaparecer no inverno seguinte. O da Saúde, nesses anos, era consistente, potente e desafiante. Um presente da natureza — com prazo de validade, como todos.

Foi isso que atraiu o grupo de surfistas da Costa, que começou a descer para ali com regularidade. Alguns ficavam dias seguidos. Dormiam debaixo dos palheiros — as típicas casas de madeira sobre estacas que já existiam na altura e que ainda hoje se vêem nas dunas. As capas das pranchas faziam de saco-cama, o peixe grelhava-se ali mesmo, e as noites passavam-se em torno de conversas, fogueiras e planos para a manhã seguinte — que podiam incluir entrar na água com nevoeiro cerrado, surfar ao pôr do sol ou ao nascer do dia, ou simplesmente esperar que o vento virasse offshore.

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©Ricardo Marques da Costa / Praia da Saúde 1979

Diz o Paulo Soviético que um dia o Miguel Aragão entrou sozinho com ondas de quase três metros, enquanto os outros hesitavam. Levou logo um valente susto — faz parte. Também se contam histórias de salvamentos: antes dos nadadores-salvadores estarem sempre presentes, eram os surfistas que iam buscar banhistas em apuros. O João Bruno, por exemplo, chegou a resgatar duas senhoras… e o próprio nadador-salvador, tudo de uma vez. Situações destas eram mais comuns do que se pensa — e ainda hoje dizem muito sobre o conhecimento do mar que estes praticantes acumulam.

Nem tudo era feito de glória. Havia espaço para o riso. O Sapinho, por exemplo, decidiu vender uma prancha velha da Alaias. Colou-lhe um cartaz com o preço — 10 contos — e cravou-a na areia, com pose. Mas o tail partiu-se logo ali, ao bater numa pedra escondida. Gargalhada geral. Só o Boavida o foi consolar, enquanto ele fazia olhinhos de Calimero.

Com o tempo, o fundo mudou. O pico da Saúde desapareceu — ou, como acontece com estas formações, está só à espera de voltar a alinhar-se. Mas quem esteve lá guarda essa memória como se fosse um segredo bem guardado: dias de ondas perfeitas, noites no areal, a sensação de estar exactamente onde se queria estar.

Sandra Barros Simões

Formada em artes visuais e produção de espectáculos, dedicada à história da cultura e das artes da Costa da Caparica

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