Sementes
Assim se forma público desde a infância, testando a sua imaginação, em diálogo com os variados intérpretes nacionais e internacionais de espectáculos de teatro, marionetas, manipulação de objectos, música, circo contemporâneo, teatro de rua, dança, performances, exposições e oficinas. Enfim, a arte em geral, a inclusão social, o mundo!
Tenho à minha frente um programa, que guardo desde 2025, da 30ª Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público, um festival multidisciplinar e descentralizado para a infância, juventude e público familiar. Que nome mais apropriado e belo para este festival Sementes! Pois que assim se forma público desde a infância, testando a sua imaginação, em diálogo com os variados intérpretes nacionais e internacionais de espectáculos de teatro, marionetas, manipulação de objectos, música, circo contemporâneo, teatro de rua, dança, performances, exposições e oficinas. Enfim, a arte em geral, a inclusão social, o mundo!

É tão importante esta vertente do Teatro Extremo que me ocorre um poema de Casimiro de Brito (Loulé, 14 de janeiro de 1938 – Braga, 16 de maio de 2024)
“Regresso à Luz
Eu não sei se a luz na infância
é uma casa ou uma coisa. Um brinquedo
ou um lugar onde se acolhem
as primeiras sementes do exílio. Sei
que minha filha
se senta nela, nessa luz
menina. São sentinela
uma da outra. E regresso à luz
que foi minha,
gentil
e se partiu. Regresso
à luz branca do mar
à luz macia dos poços da noite
ao fogo efémero que afagou
as fendas do corpo. Saltam
peixes, precipitam-se no ar
com suas bocas sedentas
de luz — a minha também. Apodrecem
restos de ouvidos
que me ouvem cantar. E já não sei
brincando com a filha
se a luz é memória
ou domicílio.”
Sementes de diálogos entre gerações, que este Festival organizado anualmente pela Companhia de Teatro Extremo tem vindo a semear.
E não apenas pelo “Sementes”, mas ainda certamente por toda uma actividade regular desde 1994 (associação legalmente constituída em 1996), em reconhecimento do seu trabalho artístico, educativo e cultural, o Teatro Extremo recebeu a Medalha de Prata de Mérito Cultural da Cidade pela Câmara Municipal de Almada em 2002 e a de Ouro em 2025.
Desde 2015 o Teatro Extremo é a companhia residente responsável pela programação do Teatro-Estúdio António Assunção. Confesso que, por razões várias vezes profissionais, não me é fácil acompanhá-la, como gostaria. Mas, lembro aqui a montagem bonita, em finais de 2024, da peça “O Sorriso aos Pés da Escada”, baseada na obra de Henry Miller, com o palhaço sublime, Augusto, na procura da Felicidade, protagonista, interpretado com brilho e sensibilidade por Rui Cerveira.

E, ultimamente, o espectáculo “Absolutamente Liberal”, uma criação original inscrita no ciclo “Sem Rei Nem Roque”, que o Teatro Extremo vem desenvolvendo no sentido de resgatar episódios notáveis da nossa História, nos quais o papel central e activo é o das gentes anónimas. Nesta criação, a memória da Guerra da Patuleia e da Revolta da Maria da Fonte continua viva e é celebrada como símbolo da resistência popular contra a injustiça social e a opressão.
De facto, a Guerra da Patuleia (1846 -1847) não foi apenas um confronto entre os Cartistas e os Setembristas, mas, sobretudo, uma considerável expressão das profundas divisões sociais e económicas que moldavam Portugal. Um conflito civil que encerra lições valiosas sobre a importância da justiça social.
Quis o Extremo, através de “Absolutamente Liberal”, uma comédia, musical até, com bons intérpretes, ironizar e provocar jocosamente o papel das estruturas do poder, em que, apesar das mudanças ao longo dos séculos, tão pouco mudou, no que diz respeito ao predomínio do capital sobre a terra e o trabalho; nomeadamente, se atentarmos na competição selvagem dos interesses financeiros e (como não?) no perigo arrogante da ideologia “liberal” contemporânea.
E pronto. É como se ainda tomássemos o lugar da plateia para assistir à Festa de Natal de um grupo de mulheres e homens de negócios de uma grande empresa, elite que define as regras da economia, onde, brindando, são presenteados: um deles com um instrumento que, como um sofisticado brinquedo, a todos transporta ao passado de Portugal, com toda a inerente possível aprendizagem. Mas quantos neste “regresso ao futuro” são capazes de aprender ?
Ou a peça mais recente, que vimos em acolhimento, “Os Barrigas e Magriços”, um trabalho do Teatro Estúdio Fontenova, de Setúbal, construído a partir do conto original de Álvaro Cunhal, no processo de contar às crianças e lembrar aos adultos a memória de um país que é o nosso!

Post scriptum: Não posso acabar esta crónica, sem deixar nota de pesar pela morte de Noémia Ariztía. Notável lutadora anti-fascista, que, em Julho/2024, viveu a felicidade em pleno, no Festival de Teatro Internacional de Almada, aquando da inauguração da réplica do Mural de Alcântara pintado pelo seu saudoso amado marido, o Pintor chileno Francisco Ariztía, integrado na exposição “25 de Abril: Os Dias, as Pessoas e os Símbolos”, co-apresentada pelo Arquivo Ephemera e pela Companhia de Teatro de Almada, dedicada ao cinquentenário do 25 de Abril. Ali foi utilizada uma imagem à escala 1 por 1, com os seus 20 metros por três, adaptados pelo Arquitecto José Manuel Castanheira à forma rectangular da Galeria do TMJB, numa cópia/ampliação fotográfica que mantinha muito da força e do poder expressivo original, como, aliás, foi reconhecido pelo crítico José Luís Porfírio, no semanário Expresso.

Maria Emília Castanheira escreve de acordo com a antiga ortografia
Crónica, Festival Sementes, Maria Emilia Castanheira, Opinião, Teatro, Teatro Extremo
