Porque não sentimos no dia-a-dia o excecional crescimento económico português?
Portugal ficou em primeiro lugar no ranking das melhores economias de 2025 da "The Economist". O crescimento é evidente, mas valoriza mais a quantidade do que a qualidade. Esta distinção mascara e descontextualiza os verdadeiros problemas económicos que os portugueses enfrentam, e provoca indignação quando olhamos para a distinção
No final de 2025, Portugal foi destacado como a melhor economia do ano pela “The Economist”, num ranking que abrange as 36 economias mais ricas do mundo1.
Os principais motivos que levaram ao destaque foram o controlo eficaz da inflação; a grande valorização das ações portuguesas no último ano (retorno de 28.2% sobre o índice PSI 20, bastante acima dos 16.8% e 16.4% verificados no pan-europeu STOXX 600 e no americano S&P 500, respetivamente); e em particular o notório crescimento do PIB, que se tem mantido em níveis superiores aos da média da União Europeia (UE) desde 2016 (exceção para 2020 e 2021 devido aos efeitos adversos da pandemia sobre a atividade), mais visíveis em Portugal por via da grande concentração das receitas em setores ligados ao turismo.

Os retornos foram calculados utilizando os valores dos respetivos índices acionistas no final do ano, ou seja, no dia 31/12/2025 comparativamente a 31/12/2024 (dia 30 para os índices sem dados disponíveis no dia 31).

Os valores para 2025 são estimativas, baseadas nos resultados trimestrais até ao 3º trimestre (taxa de variação anual dos valores acumulados dos três primeiros trimestres disponíveis de 2025, face aos três primeiros trimestres de 2024). O crescimento do PIB real exclui os efeitos da inflação.
Uma série de outros indicadores complementam a visão positiva sobre a saúde económica do país, o que contrasta com o que se presenciava durante o período de intervenção da Troika (2011-2014). A competitividade externa tem melhorado, com a balança comercial a atingir máximos históricos desde 2023 por via do aumento das exportações de serviços, que mais que compensaram a dependência das importações de bens. Desde 2015, as finanças públicas também têm seguido uma trajetória positiva através da progressiva redução do défice orçamental, que passou a excedente e reduziu o rácio de dívida pública para menos de 100% do PIB.
O emprego tem aumentado e a taxa de desemprego está em mínimos históricos, motivados pelo aumento da imigração nos últimos anos. Esta, apesar de ocupar de forma expressiva posições pouco qualificadas, foi essencial para manter o dinamismo em vários setores relevantes, como a agricultura, a construção, o comércio e a hotelaria, impulsionando o turismo, que atingiu números recorde após a pandemia.
Diante de todos estes dados é de esperar que um observador estrangeiro, pouco informado sobre os problemas internos do país, pense que os portugueses têm ganho qualidade de vida. Estamos a criar riqueza mais rápido que as principais economias europeias, o mercado de ações está ao rubro, facilmente se encontra emprego, o sistema financeiro encontra-se mais equilibrado. Afinal, o que pode estar errado?
Na verdade, vários aspetos estão a correr mal, e estes não são abrangidos nas variáveis consideradas pela “The Economist”. Vamos salientar aqueles cujo impacto direto na situação financeira de cada um é mais notório, e que em parte abordei em crónicas anteriores: a subida lenta dos salários reais e as baixas pensões; a rigidez fiscal; a falta de competitividade e produtividade das empresas; e a crise da habitação.
Entre 2014 e 2024, segundo o Eurostat, o salário médio anual líquido em Portugal subiu cerca de 45.3%, acima da média da UE (37.3%), pesem embora os “efeitos de base” ligados ao facto de noutros países a série partir de valores já relativamente elevados. Enquanto isso, a taxa de inflação acumulada neste período foi de 21.1%, o que resulta num aumento bastante mais modesto do poder de compra real. Isto deixa o cidadão comum indignado quando olha para destaques internacionais sobre a economia do país.

A subida lenta das remunerações líquidas prende-se essencialmente a um par de fatores estruturais. O primeiro é a carga fiscal, que em Portugal subiu na última década (de 33.6% em 2014 para 36.1% em 2024), que contrasta com a tendência de alívio verificada na generalidade dos países da UE, sobretudo nas suas maiores economias, como a Alemanha, França, Itália e Espanha. Os portugueses faziam um esforço maior em 2024 para pagar os impostos, do que nos tempos de crise e austeridade.
Além de desincentivar o estabelecimento e expansão de grandes multinacionais em Portugal, este factor representa também um entrave ao aumento salarial dos empregados também nas empresas nacionais. Apesar de muitas vezes desejarem valorizar as carreiras dos trabalhadores mais competentes, não o conseguem fazer, pois o Estado retira-lhes uma parte significativa.
Por exemplo, consideremos um individuo solteiro e sem dependentes, empregado por conta de outrem, com 5 anos de experiência profissional, que recebe um salário líquido de 1800€ por mês (já incluindo os subsídios de alimentação, Natal e férias). Considerando um subsídio de alimentação de 200€ mensais isentos de impostos, ficamos com 1600€ de salário, sujeito a IRS e Segurança Social. Assumindo os habituais 11% em contribuições sociais e uma taxa média efetiva de IRS de 18%, o resultado é um salário bruto (com subsídios) de aproximadamente 2450€. A este montante acrescem a TSU (23.75%, cerca de 582€ por mês nesta hipótese), eventuais seguros de saúde, acidentes de trabalho ou outros (estimativa conservadora de 2%, que significa 49€ por mês) e fundos de compensação do trabalho, de garantia e de pensões (assumindo 1%, ou seja, 24.5€ por mês). Tudo isto resulta num custo total estimado de mais de 3100€ mensais que o empregador enfrenta, para o trabalhador receber apenas 1800€.
O impacto da carga fiscal é cada vez mais notório consoante o aumento do salário, o que embora seja em parte uma característica da progressividade, sinaliza uma barreira invisível que impede que o rendimento da maioria dos portugueses ultrapasse a faixa dos 2000€ mensais. Ou seja, a classe média é excessivamente tributada face à classe alta, que consegue facilmente “fugir” à tributação, por obter mais rendimentos do fator capital. Esta é uma profunda limitação ao estado de bem estar social.
Apesar disso, as perspetivas futuras nesta matéria tendem a ser positivas devido às reduções de impostos realizadas pelo governo da AD nos últimos dois anos. Ao simplificar a burocracia e reduzir a carga fiscal ganha-se competitividade no mercado de trabalho, valorizam-se os trabalhadores mais qualificados, e incentivam-se os menos qualificados a melhorarem as suas competências tornando-se coletivamente menos dependentes de apoios sociais, retendo talento essencial e acabando com a fuga de cérebros para o estrangeiro, o que também traria benefícios em termos demográficos. Deste modo, pode gerar-se mais valor acrescentado, criando bases sólidas para que o crescimento económico português seja sustentado a médio-longo prazo e sentido nas nossas vidas.

A carga fiscal é medida pelo rácio entre as receitas totais de impostos mais as contribuições sociais (após a dedução dos valores avaliados, mas com baixa probabilidade de serem cobrados), e os custos totais do fator trabalho.
O segundo grande problema é a falta de competitividade da estrutura empresarial portuguesa2, marcada pela predominância quase total de microempresas (96% em 2023 contra 0.7% de médias ou grandes empresas, segundo o INE). Este é um fenómeno que também acontece noutras economias, embora num grau consideravelmente inferior, visto que um empreendedor pode começar um negócio com alguma facilidade, mas aumentar a escala das suas operações acaba por ser mais desafiador.
Em Portugal esta questão torna-se fundamental, pois uma pequena economia aberta não pode crescer a longo prazo só por via da limitada procura interna, sendo a procura externa crucial. Esta só consegue ser captada se as empresas nacionais reunirem uma série de condições que lhes permita alcançar retornos crescentes à escala, e concorrer nos mercados internacionais.
Assim, um setor privado marcado por micro e pequenas empresas, onde os retornos sobre o investimento são modestos, a produtividade reduzida3 , muitas vezes com as próprias contas mal geridas, não é capaz de oferecer salários atrativos para a mão-de-obra mais qualificada, sobretudo a jovem, que acaba por emigrar. A isto acresce o enfoque crónico em atividades de baixo valor acrescentado, associadas ao setor primário, à construção ou ao turismo, que nos últimos anos têm empregado muita população estrangeira (sobretudo oriunda do Indostão), menos exigente em termos remuneratórios, o que agrava ainda mais a pressão descendente sobre os salários reais).
Por último, não poderia acabar esta crónica sem referir a crise da habitação, não traduzida na evolução dos salários e muito menos no destaque sobre o crescimento extraordinário da economia portuguesa, mas que impacta diretamente o poder de compra e a qualidade de vida da população, principalmente a dos jovens-adultos à procura da primeira casa.

Os dados de ambos os indicadores são transformados em índice com base em 2015 (2015 = 100).
Portugal é o país da UE onde é mais difícil um cidadão suportar uma renda mensal ou comprar habitação própria permanente, com a maior subida do rácio entre o preço das casas e os rendimentos desde 2015 (44.2% contra 5.7% na média europeia). Este desequilíbrio entre a evolução do mercado imobiliário e os salários, não incorporado diretamente na inflação, complementa a ideia de que os portugueses têm perdido poder de compra, com a proporção das prestações de capital e juros mensais, no âmbito dos empréstimos à habitação, cada vez mais significativa nas suas despesas.
Estes detalhes servem como lição para os decisores políticos: nem tudo é sobre crescimento económico, e um foco isolado em medidas que o acelerem não é suficiente para conseguirmos alcançar a justiça social e uma qualidade de vida plena.
Em poucas palavras, podemos afirmar que o crescimento português tem sido excecional em quantidade, mas nem tanto em qualidade.
- Ver publicação do governo. ↩︎
- Ver crónica “O tamanho das empresas e a sua especialização são essenciais para a competitividade” ↩︎
- Segundo o Eurostat, Portugal é um dos países da UE onde a produtividade do trabalho é mais baixa. ↩︎



