Dar voz à Natureza, com coragem

Investir na natureza é investir no fundamental: mais água, mais saúde, mais rendimento, mais turismo sustentável, mais segurança alimentar. É também investir na nossa sobrevivência enquanto espécie.

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Almada atravessou nos últimos meses momentos difíceis e de grande mediatização, quer após a passagem da tempestade Kirstin que engoliu o areal das praias da Costa da Caparica e que provocou danos consideráveis, com as ondas a atingirem áreas habitualmente destinadas à circulação pedonal e a deixarem várias zonas com o areal totalmente submerso. O cenário foi de erosão muito marcada em algumas praias do concelho e a reposição dos areais poderá ser “praticamente impossível”, numa altura em que a faixa costeira volta a evidenciar fragilidades. Dias depois a arriba fóssil da Costa da Caparica que estaria “ensopada” originou deslizamentos de terras registados em S. João da Caparica obrigando à retirada de dezenas de pessoas de edifícios que ficam junto à arriba fóssil.

Estamos num momento crucial — temos que escolher ao que queremos dar voz – a interesses económicos que continuam a agredir o ambiente natural ou à Natureza que grita por socorro? Que futuro queremos construir?

Estes episódios, e o novo normal climático que já não podemos negar, são uma oportunidade para olharmos mais longe, para além das urgências do presente, e reconhecermos o que é cada vez mais evidente: investir na natureza é investir na prosperidade duradoura, na saúde coletiva e na segurança e abundância para todos. 

Durante demasiado tempo, tratámos a natureza como um recurso infinito a explorar retirando dela tudo o que precisamos para alimentar o nosso atual modo de vida. Mas a ciência e a realidade mostram-nos o contrário: a natureza é finita, o novo normal climático é uma realidade, e é urgente preservar a natureza; é quando cuidamos da terra, da água, do oceano, das florestas e da biodiversidade que a verdadeira riqueza floresce. O restauro da natureza é uma estratégia económica, social e civilizacional. Sem natureza, não há sociedade. 

Almada tem agora uma oportunidade histórica: escolher olhar para a natureza não como um ornamento secundário, mas como infraestrutura vital. Restaurar ecossistemas, proteger florestas e oceanos, regenerar solos, não são tarefas de ambientalistas excêntricos — são atos de governantes visionários. São também motores de uma economia nova, verde, resiliente, descentralizada e geradora de emprego e riqueza. São atos de serviço público e de segurança para as pessoas.

Investir na natureza é investir no fundamental: mais água, mais saúde, mais rendimento, mais turismo sustentável, mais segurança alimentar. É também investir na nossa sobrevivência enquanto espécie. Estamos a ultrapassar os limites planetários que permitem a vida tal como a conhecemos. Continuar com políticas tímidas ou paliativas é, no fundo, uma forma disfarçada de negação. 

A escolha é sobretudo entre modelos de sociedade. Ou continuamos a priorizar uma sociedade que consome mais do que o planeta pode dar, que agride a natureza a seu belo prazer, ou fazemos a transição para uma economia e uma ordem social justas. 

Colocar a Natureza no centro das decisões é um ato de coragem; apostar em políticas que restauram a natureza é escolher justiça, futuro, segurança e vida. É reconhecer que o bem-estar humano começa no equilíbrio ecológico. É afirmar que queremos um concelho onde todos possam viver com dignidade e em harmonia com a natureza. 

A natureza é a maior fonte de prosperidade que conhecemos. Restaurá-la é o maior ato de inteligência coletiva que podemos fazer. E tudo começa com uma escolha – dar voz à Natureza com coragem.

Ângela Morgado

Directora Executiva da WWF Portugal (World Wide Fund for Nature). Socióloga. Almadense.

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