“Quebraram-te o bico, Rouxinol. Rouxinol sem bico não pode cantar”
É com muita pena que trago para titulo desta pequena crónica parte do poema breve de Sebastião da Gama, que Francisco Fanhais imortalizou com a sua voz e interpretação.
O impensável aconteceu em Almada, a Sra Presidente da Câmara reduziu drasticamente o tempo de intervenção dos munícipes, quebrando uma já longa tradição de duas reuniões mensais públicas, passando a apenas uma.
Este não pode ser um assunto para esquecer, e muito menos aceitar que esta decisão se deva ao facto da “necessidade de reforçar o trabalho interno do executivo para apreciação técnica de propostas”.
Francamente Sra Presidente e demais executivo camarário, então são as intervenções daqueles que legitimaram as posições de vossas excelências, aos quais tanto apelaram para que votassem, que vos atrasam os trabalhos?
A isto chamo desconsideração inadmissível e ainda quero acreditar que tal decisão possa ser revogada e que tudo volte à normalidade de sempre, desde que o poder autárquico democrático foi instituído em Portugal!
O rigor da contagem do tempo de intervenção dos munícipes também chegou à Assembleia Municipal: um autêntico contra-relógio.
Entretanto ,iniciativas referenciadas no Facebook com assinaturas de protocolos e muito boa disposição sugerem que por cá está tudo bem. Infelizmente existem motivos que não dão paz aos que verdadeiramente se debatem com problemas muitos sérios, e é quando mais necessitam de apoio que por vezes esse apoio falha.
Todos temos presente o que aconteceu na sequência das fortes intempéries provocadas pelas depressões Kristin, Leonardo e Marta que atingiram o país. O concelho de Almada foi um dos mais fustigados, especialmente devido a graves deslizamentos de terras em arribas e vertentes na Azinhaga dos Formozinhos (Porto Brandão) e na Costa da Caparica. Parece que já foi há muito tempo mas para muitos os efeitos ainda estão bem presentes.
Na sequência dos graves deslizamentos de terras (fevereiro de 2026), a situação das famílias afetadas continua a ser acompanhada de perto: 127 pessoas (48 famílias) continuam realojadas temporariamente em hotéis; 35 habitações têm ordens de demolição emitidas por estarem estruturalmente condenadas.
Como apoio social está a ser acionado o programa Porta de Entrada para garantir subsídios de alojamento e apoiar a transição destas famílias para o mercado de arrendamento privado. No terreno o LNEC e as equipas municipais mantêm a monitorização contínua e trabalhos de estabilização das arribas. Situações bem concretas ouvidas na primeira pessoa levam-me a pensar e a dizer que estas situações merecem toda a prioridade para serem devidamente resolvidas!
Voltando ao princípio, Almada sempre foi uma terra de participação e de luta, mesmo em tempos bem mais difíceis, e nos dias que correm a participação cidadã deve ser incentivada e acarinhada, não compreendo esta redução do tempo de intervenção dos cidadãos nas reuniões públicas da Câmara Municipal.
Podia falar de várias coisas que continuam mal no terreno, passeios descuidados, limpeza insuficiente e por impulsos, preço da água que aumenta para agravar ainda mais o orçamento de muitos, passadeiras de peões apagadas, património histórico ao abandono, imóveis pertença da Câmara sem recuperação e a Margueira aqui tão perto e tão esquecida!
Cantilena
Cortaram as asas
ao rouxinol
Rouxinol sem asas…
não pode voar.
Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico
não pode cantar.
Que ao menos a Noite
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite
não pode viver.
(Sebastião da Gama)
Almada Online, BE, Crónica, Luís Filipe Pereira, Opinião



