Centro de Saúde da Costa da Caparica encerrado devido a falta de água
As falhas de água e pressão mantêm-se, continuando a Costa o local mais afectado
Na sequência das interrupções no abastecimento de água que têm vindo a acontecer no concelho de Almada, a Unidade de Saúde da Costa da Caparicaencerrou hoje, 7 de Julho ás 13h, tendo sido garantida toda a actividade assistencial até essa hora, segundo a ULSAS. As consultas programadas e tratamentos de enfermagem previstos para a parte da tarde foram reprogramados.
Foi com espanto, que os utentes que se dirigiram hoje ao Centro de Saúde, reagiram ao ler o aviso de encerramento afixado na sua porta. Apesar da presidente da Câmara Municipal de Almada (CMA), Inês de Medeiros, do vice-presidente Filipe Pacheco (na reunião de autarquia de 6 de Julho), e do presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada, Luís Palma, repetirem a uma só voz, estar salvaguardado o acesso a água nos pontos considerados hipersensíveis, como o Hospital Garcia de Orta, Centros de Saúde, lares de idosos, clínicas de hemodiálise e combate aos incêndios, os caparicanos foram hoje confrontados com mais este encerramento. Este é um serviço essencial, que presta cuidados diários de saúde a adultos, crianças e idosos.
Também o Centro Paroquial da Costa da Caparica, edifício lateral ao centro de saúde, será encerrado tendo sido pedido às famílias para irem buscar as suas crianças.
Vários empresários caparicanos desesperam para manter a normalidade e não fechar os negócios. Os mais afectados são a restauração, cabeleireiros, alojamentos locais e hotelaria. A economia sazonal, da segunda cidade do concelhos de Almada, também está afectada.
O Almada Online tentou contactar o Ministério da Saúde, sem sucesso até à publicação desta notícia.
Gabinete de Crise e Plano de Contigência accionado
Em comunicado conjunto, os SMAS de Almada e a CMA anunciaram a 6 de Julho, que fora activado o Plano de Contingência que consiste no reforçar da monitorização permanente da rede de água e na implementação de um conjunto de medidas extraordinárias destinadas a garantir a continuidade do abastecimento de água à população.
O gabinete de Crise é “liderado pelo Presidente do Conselho de Administração dos SMAS Almada, Luís Palma, integrando diferentes serviços dos SMAS Almada e da Câmara Municipal de Almada, podendo ser alargado a outras entidades sempre que a evolução da situação o justifique”.
“Encontra-se em curso uma redução da pressão da água na rede entre a meia-noite e as 6 horas em todo o território do Município de Almada. Sempre que se revele necessário, serão igualmente posicionados camiões-cisterna nas zonas mais críticas e junto de clientes sensíveis, garantindo uma resposta rápida às situações de maior exigência”, pode ler-se no comunicado.
Até ao fecho desta notícia não era conhecida a localização de nenhum destes camiões-cisterna.
Fornecimento de água aos moradores
Desde ontem que Raul Pinto, mais conhecido na Costa por o pequeno agricultor, em coordenação com a Junta de Freguesia da Costa da Caparica (JFCC), encontra-se em frente ao Centro Comercial Pescador, a distribuir água aos moradores da Costa da Caparica a título gratuito. A água é proveniente do seu furo nas Terras da Costa, destina-se apenas para limpezas e autocliesmos. Tem também alguns garrafões com água que foi buscar aos bombeiros.
“Estou aqui a dar água para abastecer a população, porque acho injusto as pessoas andarem a comprar água nos supermercados para porem na sanitas, para lavar a loiça. Pagamos os nossos impostos, na factura da água pagamos taxas para tudo e mais alguma coisa”, explica Raul num vídeo no Facebook.
Os Bombeiros Voluntários de Cacilhas (BVC), também em coordenação com a Junta, estão também a disponibilizar água aos cidadãos no seu quartel da Costa da Caparica desde hoje, 7 de Julho. Ao dispor dos munícipes estão nove mil litros de água armazenada num tanque de um veículo de combate a incêndios.
“Decidimos tomar esta decisão, hoje ponderada, porque a verdade é que quem deveria tomar esta esta iniciativa é a Proteção Civil e a Câmara Municipal, mas como não estão a tomar nós decidimos agir”, disse ao DN a Presidente da Junta, Vanessa Krause.
Até ao momento, estas foram as duas soluções implementadas no terreno por particulares e pela Junta. Na reunião de ontem da CMA foi questionado pela oposição porque não havia camiões-cisterna a distribuir água nas zonas mais afectadas do concelho pela Proteção Civil, ao que a vereadora Francisca Parreira respondeu que as corporações dos bombeiros do concelho não possuiam esse equipamente, teria de ser adquirido, e mencionou que a água tem de ser tratadas, não se deve andar a injectar no sistema água de proveniência não controlada para que se preserve a saúde pública.

Reação do Governo
A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, apontou Almada como “o município com maiores perdas de água” na rede de abastecimento, admitindo a necessidade de investimentos nas infra-estruturas.
“Almada é talvez o município com maiores perdas de água, tem muito acima da média, mais de 35%. Portanto, há uma necessidade de manutenção e de investimento que é importante fazer”, afirmou a governante, em declarações aos jornalistas em Évora, esta Terça-Feira.
Questionada sobre as falhas de abastecimento que têm ocorrido em Almada, a ministra realçou que a responsabilidade da situação é do município e dos SMAS.
“Não tínhamos nenhum alerta da Câmara de Almada sobre problemas, nem nenhum pedido”, referiu, indicando que o primeiro contacto, através do telefone, foi feito na Segunda-Feira pelo vice-presidente, Filipe Pacheco, a própósito do licenciamento de novos furos.
Segundo Maria da Graça Carvalho, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado, vai deslocar-se esta tarde a Almada para “falar com o executivo municipal para ver que ajuda é necessária” na resolução das falhas. Tanto a APA como o Grupo Águas de Portugal “já se disponibilizaram para ajudar no que for preciso, embora a responsabilidade seja municipal; o Governo central está para ajudar”, assinalou.
Nas declarações aos jornalistas, a ministra disse que a APA vai conhecer que projectos tem o município para a rede de abastecimento e perceber se o problema “está pura e simplesmente na gestão do sistema, se está nas perdas de água”. “Se é necessário [fazer] obras de perdas de água, porque é que não foram feitas, porque tem havido financiamentos nos fundos europeus para perdas de água, como houve no Algarve, em que diminuíram drasticamente as perdas de água”, salientou. “Mas, agora, o que interessa é o futuro e ver como é que podem ajudar tanto a APA como as Águas de Portugal”, acrescentou a governante
Protesto agendado
Esta Quarta-Feira, 8 de Julho, vai ser realizado um cordão humano silencioso na Costa da Caparica, com o intuito de sensibilizar a autarquia para resolver os problemas de falta de água. O protesto tem hora marcada para a concentração às 19h45, em frente ao Centro Comercial O Pescador. O cordão terá como ponto central a rotunda de entrada na Costa da Caparica, estendendo-se pelos três eixos viários que dela irradiam, a Avenida Afonso de Albuquerque, no sentido Norte, a Avenida Aresta Branco, no sentido Sul e a Avenida 1.º de Maio, em direçcão ao centro da Costa da Caparica.
Responsabilidades políticas
O grupo de cidadãos que ontem se manifestou em frente à sede dos SMAS exigiu a demissão de Inês de Medeiros e de Luís Palma. Na reunião da CMA, foram também vários os munícipes a fazer o mesmo pedido.
O PSD Almada requereu uma reunião extraordinária à Assembleia Municipal de Almada (AMA), para que possa apresentar e levar à discussão de todos os partidos uma moção de censura ao actual executivo municipal. A moção de censura, mesmo que seja aprovada, não é vinculativa e, por isso, não terá qualquer efeito práctico na continuidade do executivo.
A Comissão Política Distrital de Setúbal do mesmo partido, em nota de imprensa entende que “se Inês de Medeiros “não tem capacidade para responder eficazmente aos problemas que afectam os almadenses só tem um caminho: a demissão”.
Inês de Medeiros foi muito criticada por estar ausente da reunião camarária de ontem, devido a motivos pessoais, segundo a justificação dada por Filipe Pacheco.
“A senhora presidente não está hoje, porque não pode estar. Porque teve um compromisso de foro pessoal”, respondeu Filipe Pacheco à oposição.
Existe até uma petição online que exige a sua demissão imediata, assim como a de Luís Palma. A petição conta até ao momento com mais de 250 assinaturas. Nela pode ler-se que “existem responsabilidades políticas e de gestão nesta situação [falhas de água], os abaixo-assinados solicitam: a demissão imediata do Presidente dos SMAS de Almada; a demissão da Presidente da Câmara Municipal de Almada; a realização de uma auditoria e fiscalização independente à gestão dos SMAS; a apresentação pública de um plano de acção urgente para garantir um abastecimento de água estável e eficiente no concelho. Os cidadãos de Almada merecem respeito, transparência e serviços públicos de qualidade. Não podemos continuar a aceitar uma situação que afecta a saúde, a higiene e a qualidade de vida de milhares de pessoas”.
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