As promessas e o Arsenal do Alfeite
Pode haver quem não saiba o que foi e o que é hoje o Arsenal do Alfeite.
O Arsenal do Alfeite iniciou a sua laboração no Concelho de Almada em 1939, desde então e até aos dias de hoje, foi sempre a principal ferramenta da Marinha Portuguesa, quer na construção de embarcações de grande relevo e importância, quer na reparação e manutenção da sua frota.
Note-se que, num grande número de navios envelhecidos desta frota, foi apenas graças aos conhecimentos práticos das equipas técnicas do Arsenal – engenheiros e operários altamente qualificados – que foi possível mantê-la com capacidade de navegação.
O Arsenal do Alfeite foi para a Marinha um autêntico “Anjo da Guarda”. Seria de esperar que em 2009, quando o governo de maioria absoluta do Eng. José Sócrates entendeu extinguir o Arsenal do Alfeite, a Marinha se opusesse, não permitindo que tal acontecesse. A Marinha Portuguesa, quando o Arsenal do Alfeite mais precisava de defesa, não o fez. Só os trabalhadores se uniram e lutaram contra essa decisão.
Os trabalhadores ficaram sós na sua luta, nem o poder político nem a Administração da Marinha moveram um dedo contra a extinção do Arsenal do Alfeite. Assim, desde 2009 passou a existir a Arsenal do Alfeite SA, com promessas de grandes investimentos e modernização do Estaleiro.
Esqueceram-se porém, que estavam a alienar o que de melhor tinha aquele Estaleiro: os seus profissionais. De uma assentada reduziram os seus 1200 trabalhadores para pouco mais de 600. Desde então têm vindo a reduzi-los drasticamente.
Segundo dados de Janeiro de 2026, existem no Arsenal do Alfeite 412 trabalhadores, cuja média de idades se situa em torno dos 50 anos, na sua esmagadora maioria homens, sendo as mulheres no ativo apenas 7 a 8%.
Os órgãos representativos dos trabalhadores, CT e Sindicato, têm alertado para a perda de conhecimento que se verifica fortemente com a saída de trabalhadores experientes que não são substituídos, e que pode levar à falência técnica. O número de trabalhadores é insuficiente para garantir a operacionalidade da frota da Marinha, com os riscos que tal acarreta.
Torna-se necessário e urgente reintegrar o Arsenal na Estrutura orgânica da Marinha.
“As Promessas”
Dizem que apesar da escassez de pessoal o Arsenal está num momento de transição.
Foi assinado um contrato de 41,4 milhões de euros (ME) com a Marinha, para assegurar a manutenção da frota nos próximos três anos. Também dizem que vão despoletar um processo de “Recrutamento Estratégico”, de quadros qualificados em engenharia de sistemas eletrónicos e mecânica. Só não dizem onde vão encontrar tais quadros qualificados. Inaugurou recentemente a “Academia do Arsenal”, para acelerar a formação e inovação tecnológica. Isto depois de terem destruído a Escola de Formação do Arsenal do Alfeite, que durante décadas formou centenas de profissionais de acordo com as suas necessidades.
Infelizmente existem pessoas ao mais alto nível que têm poder e capacidade de destruir e, ao mesmo tempo, apresentam um conjunto de promessas, que não são mais que exercícios de demagogia.
É interessante olhar para a proposta “Gigante” do Naval Group, que se propõe investir “dezenas de milhões” de euros na modernização das infraestruturas e equipamentos do Arsenal do Alfeite, cujo modelo passaria pela criação de uma nova empresa conjunta (Joint Venture), leia-se “casamento de conveniência empresarial”. Se concretizado, este plano poderia transformar o Alfeite num centro de referência europeu de manutenção de navios de alta tecnologia.
Entretanto o acesso dos navios de maior calado à doca exigem dragagens. Agora com a aprovação de 2,5 ME, parece estar para breve a sua execução. Veremos…
Acontece que em Dezembro de 2025, o Governo Português tomou uma decisão que afeta o investimento prometido pelos Franceses. Portugal escolheu fragatas Italianas! O Ministro da Defesa optou pelas FREMM EVO da Italiana Fincantieri, num negócio de cerca de 3 mil ME. Ou seja, os Franceses foram reprovados. O Governo está agora a negociar com os Italianos da Fincantieri quais os investimentos que estes prevêem fazer no Arsenal do Alfeite, como contrapartida pela compra das fragatas FREMM.
Atenção, estas fragatas são significativamente maiores do que as atuais Classe Vasco da Gama, têm cerca de 145 metros ultrapassando o limite de referência de 135 metros do canal de acesso à Base Naval. O calado pode chegar aos nove metros, mas o canal atual do Alfeite tem uma cota de serviço de cerca de seis metros. Isto significa que as obras de dragagem nas docas do Alfeite são urgentes, este investimento terá de ser avançado pelo Estado se Portugal quiser que a manutenção seja feita “em casa”.
E assim vamos andando entre os Franceses e os Italianos, não esquecendo os Turcos a quem Portugal encomendou dois navios de última geração à empresa STM (Savunima Teknolojileri Muhendislik), num investimento de 100 ME cada. O NRP Luís de Camões e o NRP D.Dinis.
É sem dúvida um assunto de muitos milhões, parece que a Marinha Portuguesa encontrou forma de investir para se modernizar apenas com recurso ao estrangeiro. Nada tendo contra esse facto. É com mágoa que sou confrontado com uma mão cheia de nada ou cheia de incertezas em relação ao Arsenal do Alfeite.
O Arsenal do Alfeite e os seus trabalhadores mereciam mais! A luta continua!
Almada Online, BE, Crónica, Luís Filipe Pereira, Opinião


