Meter água
Desculpem o trocadilho, mas se a água que os autarcas metem entrasse na rede pública, Almada não teria problemas de abastecimento, nem faltava a água nas torneiras.
Não era a minha intenção, mas lá vou ter que falar do problema da água, não irei reduzir à politiquice do X é filho de Y, até porque acho que os problemas são muito mais profundos (nova piada).
Faltar a água nas torneiras de um país desenvolvido, avançados que vamos no século XXI, parece (e é) inaceitável, mas os problemas de falta de água são velhos em Almada. Em 1384, estando Almada cercada (tal como Lisboa) por D. João de Castela, não havendo água na vila, um grupo de Almadenses vai buscá-la onde havia, na Fonte da Pipa (cuja configuração atual, tão maltratada, é do século XVIII). Camões relata-o assim:
Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos, se defendem,
Fortes, de quatrocentos castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem.
Digno feito de ser, no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno!
Descontemos o exagero dos números, para sublinhar que a água já era uma questão séria nesse longínquo século XIV de poucos banhos e nenhumas máquinas de lavar.
A verdade é que a água canalizada só chegou a Almada há pouco mais de 100 anos, em 1922. Não chegava às casas, mas sim ao Largo do Chafariz, hoje Largo José Alaiz. Uma verdadeira rede de água canalizada só surge nos anos 1940 e só abrangeria uma pequena parte do concelho.
Não consegui encontrar a informação sobre quando se conseguiu a cobertura total do concelho, mas, seguramente, foi bem depois do 25 de abril. Foi também depois do 25 de abril que se fez uma grande renovação da rede que, além da idade, já não respondia às necessidades de uma população que tinha crescido muito.
A realidade demográfica do concelho de Almada no século XXI é curiosa. As freguesias urbanas (as que correspondem ao perímetro da Cidade de Almada) estagnaram ou até diminuíram em população. Em contrapartida a freguesia da Charneca/Sobreda passou de cerca de 20 mil habitantes, em 1991, para 48 mil em 2021. A Costa da Caparica, no mesmo período, duplicou a população de um pouco menos de 7 mil, para quase 14 mil, e será quase impossível calcular a população flutuante.
Tendo os municípios ao seu dispor os Planos Diretores Municipais (PDM) este aumento deveria estar previsto e a infraestrutura ter acompanhado o aumento. Almada tem um PDM dos anos 90, ao qual foram feitas uma série de alterações, mas nada indica que a estrutura tenha acompanhado o crescimento da população.
Na Sobreda/Charneca além do crescimento de população parece ter havido uma explosão de piscinas, mesmo que atualmente possam gastar menos água que há uns anos, isso representa um gasto considerável.
O elefante na sala de que ninguém falou são os campos de golfe. Segundo dados do Turismo de Portugal, para a Grande Lisboa (não temos dados para Almada) os campos de golfe consomem cerca de 10 mil m3 de água por hectare. Os três campos de golfe de Almada terão cerca de 75 hectares, ou seja 750 mil m3 de água por ano, cada m3 são 1 000 litros.
Não serão números tão alarmistas como se chegou a divulgar, mas serão mais de 5% do consumo, a maior parte de furos próprios, mas esses vão beber ao mesmo aquífero que a rede pública.
A leitura do Plano de Atividades dos SMAS para 2026 não dá nenhuma indicação de que pudessem aparecer problemas ao longo do ano. É um Plano cheio de lugares-comuns, provavelmente copiado ano após ano. A falta de planeamento parece evidente no curto prazo e, provavelmente, no longo.
Este texto foi escrito antes da Assembleia Municipal, e vai ser publicado depois da sua realização, vamos ver como cada partido justifica a sua posição, como explica a sua atuação ao longos dos últimos anos, talvez se entenda como a falta de água rebentou como uma bomba, quando devia ter sido prevenido.
Passamos do elefante ao dinossauro. Alterações climáticas. Vai ser pior, os períodos de seca e calor extremo vão ser mais. As soluções imediatas são insuficientes, quando nem se conseguiu pensar a seis meses, é preciso pensar a décadas.
A água, que em Almada é um problema presente, é um dos grandes problemas do futuro. A água do mar sobe e a água que pode ser usada para consumo diminui. Seguramente que depois destas soluções imediatas será necessário repensar consumos e fontes de abastecimento.
Almada Online, Crónica, história, Nuno Pinheiro, Opinião



