Mais de 1.500 pessoas no protesto na Costa, dezenas no Pragal

População manifesta-se nas ruas exigindo solução para a crise de água que afecta o seu dia-a-dia

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Foram mais de 1.500 pessoas que disseram presente ao chamado para um cordão humano silencioso, na Quarta-Feira 8 de Julho, na Costa da Caparica. Na passada Sexta-Feira foram poucas dezenas que se deslocaram ao Pragal sob o mote “Água Já”. Ambos os protestos foram organizados pela população, eram inclusivos e apartidários.

No entanto, no protesto da Costa da Caparica foram vários os partidos que compareceram, sobretudo autarcas ou ex-autarcas locais, não se esquivando aos directos para as tvs em prime time. Foi notória a ausência de políticos do PS e da CDU, que têm um acordo de governação na Câmara Municipal de Almada (CMA), o que é compreensível, dado os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada serem uma empresa da autarquia.

Ao som de “Queremos água em casa”, “A água não é tua, Inês para a rua” ou “A Costa unida, jamais será vencida”, o que não aconteceu foi um cordão humano silencioso. Nem as organizadoras, nem os três elementos da GNR destacados para o evento esperavam tanta gente, e a policia apressou-se a pedir reforços, que chegaram na forma de meia dúzia de agentes da polícia de choque.

O seu objectivo era o de que os manifestantes não bloqueassem o acesso à entrada da Costa da Caparica, mas visivelmente a GNR não estava ali para carregar na população, até porque as autoridades também sentiram os cortes de água, que demoraram horas e vieram sem nenhum aviso por parte dos SMAS, durante cerca de um mês.

Na Costa da Caparica é algo que acontece há anos, mas desde Maio passado a duração dos cortes também afectou severamente a Sobreda, Charneca da Caparica, Capuchos, Laranjeiro e Feijó. Tudo isto durante uma vaga de calor prolongada, que fez com que a população e comerciantes perdesse a paciência, exigindo responsabilidades a quem os governa.

Os comerciantes da Costa foram severamente afectados, sobretudo os do ramo da hotelaria e restauração, mas também cabeleireiros, lavandarias, alojamento local e pequenos negócios. A falta de água foi a gota de água, que fez transbordar o copo da cidadania activa, da mobilização e união colectiva.

As organizadoras do protesto caparicano, Sandra Barros Simões, Carolina de Assis e Elsa Viegas, tinham por objectivo apelar à resolução da falta de água na Costa da Caparica. A acção “nasceu da preocupação comum com os sucessivos problemas no abastecimento de água que afectam a população e pretende dar voz, de forma pacífica, silenciosa e apartidária, a uma preocupação partilhada por muitos cidadãos”, explicavam em uníssono num comunicado conjunto pós-protesto. Outra das motivações foi a de “durante um largo período de tempo, não ter sido possível obter por parte das entidades responsáveis”, informações ou respostas às perguntas dos munícipes.

No mesmo comunicado agradecem a “todos os cidadãos que participaram de forma cívica e respeitadora, demonstrando assim que é possível defender uma causa comum, colocando o interesse da população acima de qualquer agenda política”.

Ao Almada Online, no calor do protesto, Sandra Barros Simões afirmou que “jamais em tempo algum faltou água desta forma na Costa da Caparica”. Em relação ao protesto disse que “a forma como as pessoas se conduziram autonomamente, fez com as televisões viessem e houve mais reacção”, acrescentando que “gostaria mais de ter visto as pessoas paradas em cordão, seria mais poético, mas isto foi tudo espontâneo “. Não poupa os responsáveis pela falta de água “todos os comunicados que saem, não acontece nada do que lá se diz. Ainda hoje saiu um comunicado em que diziam que seria cortada a água em várias localidades. A Costa da Caparica não estava na lista, e passado um quarto de hora do comunicado faltou a água na Costa”. Admite que houve uma “tentativa de aproveitamento político por parte de vários partidos e movimentos, mas este assunto é todo ele político, não há nada a fazer”.

Elsa Viegas, disse-nos que há várias perspectivas de olhar para este protesto. “Por um lado temos de pensar o que o motivou, que fez com que as pessoas se organizassem e convocassem um cordão humano silencioso, para de certa forma pedir respostas para a situação da água que foi, está a ser e provavelmente continuará a ser um problema nas nossas vidas diárias. Não estávamos à espera de tanta gente. A ideia inicial não foi cumprida, mas as pessoas de forma livre, voluntária e espero que consciente, aderiram ao nosso repto e acabaram por transformar isto numa manifestação em movimento, e não era essa a ideia inicial. É um colectivo, que se auto-organizou espontaneamente”.

A população acabou por impedir o trânsito, quer na rotunda de entrada na Costa, quer na mais pequena perto do Centro Comercial Pescador. Insistindo no corte do trânsito no final do IC20, vários manifestantes fugiram aos conselhos da GNR, e atravessaram as passadeiras num movimento incessante nas passadeiras. Muitos automobilistas saudaram o protesto buzinando e acenando. Às chamadas de atenção da GNR, respondiam “não me pode impedir de atravessar a passadeira”.

Nestas coisas, há sempre alguém que estraga “a festa”, e os carros que queriam seguir caminho começaram a ser esmurrados quando passavam nas passadeiras. Houve uma pequena altercação com a polícia de choque, que claramente não estava ali para carregar nas pessoas, mas sim para desimpedir as rodovias e garantir que ninguém era atropelado. Um homem foi detido, acusado de agressão (uma cotovelada) a um agente da autoridade, depois de um “deslarguem-me”, quando o tentaram remover da passadeira.

Protesto no Pragal com fraca adesão

“Queremos água, queremos água já”, gritavam os manifestantes na concentração de 10 de Julho, convocada nas redes sociais por uma jovem moradora do Monte da Caparica, cujo objectivo era mostrar publicamente a indignação dos munícipes perante a crise de água que afecta o concelho.

Ao som indignado de “Almada não é tua, Inês para a rua!”, e com cartazes que lembravam que a água é um direito público e humano, algumas dezenas de pessoas marcaram presença. As falhas no abastecimento nesta localidade também têm prejudicado moradores e comerciantes. Revoltados com a autarquia e os SMAS, os moradores disseram recear que a situação não fique normalizada no espaço de duas a três semanas, tal como foi anunciado.

Em declarações à agência Lusa, Joana Lemos explicou que a ideia de convocar este novo protesto surgiu depois do cordão humano realizado na Quarta-Feira na Costa da Caparica, onde cerca de 1.500 pessoas exigiram soluções para o problema e pediram a demissão da presidente Inês de Medeiros, presidente da CMA.

“Todos temos sentido os cortes. Umas vezes numa zona, outras vezes noutra. Temos de andar a intercalar entre amigos para tomar banho. No dia em que aconteceu o protesto na Costa da Caparica, estávamos em casa de amigos e surgiu a ideia… se eles começaram, então nós vamos continuar”, disse.

Joana Lemos disse ter esperança que assim os munícipes possam ser ouvidos.

“Temos vários problemas, não é só a falta de água. Temos problemas com a limpeza das ruas, e também da iluminação, porque aqui não temos luz na rua. Mas hoje o protesto é mesmo centrado na questão da água”, explicou.

O dia a dia dos munícipes do Monte da Caparica, adiantou, também tem sido complicado e não se sentem melhorias no serviço, apesar das medidas anunciadas pela autarquia.

“Não sentimos mudanças nenhumas. A única resposta que nós tivemos até agora é que ia haver cortes à noite, mas os cortes aqui começam logo às dez da manhã, oito da manhã”, disse.

Com um gabinete de crise, o plano de contigência dos SMAS activo, em situação de alerta, e com medidas de restrições no consumo de água, muitos almadenses vivem ainda na incerteza de saber se terão água na torneira quando acordarem ou não, e indignam-se com as sucessivas justificações que ao longo das semanas lhes têm sido transmitidas pelos canais oficiais da CMA e SMAS, e pela comunicação social, que lhes deu voz.

Primeiro era o Verão e os turistas que tinham aumentado imprevisivelmente os consumos em Maio; depois o desperdício na rede de abastecimento e as puxadas ilegais; por fim as reservas em baixo e a necessidade de as fortalecer com racionamento nocturo de água. Agora há também uma disputa jurídica com o concelho do Seixal, que fornece a Almada muita da água que consome.

Os políticos locais, que pululam agora os protestos populares, aproveitando o prime time das tvs e rádios para fazer duras críticas ao executivo, desdobram-se em comissõoes de inquérito, requerimentos, entrevistas, perguntas aos SMAS e ao executivo municipal. Curiosamente, nenhum partido teve a ideia, quando a falta de água estava no seu auge e a população desesperava, de meter a mão na massa e ir abastecer as populações, com carros-cisterna requisitados, garrafões comprados ou acordos com concelhos das suas cores políticas. População, comerciantes e turistas apenas se tiveram uns aos outros.

O povo sabe bem como são estas coisas, a responsabilidade de não serem protegidos pelos seus governantes morrerá solteira, em cima de um camelo, a atravessar o deserto em que se transformou um concelho às portas da capital, pertencente à àrea Metropolitana de Lisboa (AML), no século XXI, num continente europeu onde actualmente não existe registo de racionamentos de água.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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