Almada e a água que falta: entre a gestão, as redes e a confiança pública

Em 2025, os piquetes de água e saneamento realizaram 7.321 intervenções. Em 2023, Almada tinha 877 km de condutas, muitas ainda em processo de renovação. Cada intervenção é um sinal: a rede está sob esforço; e esse esforço traduz-se em falhas.

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Há cidades onde a água corre como uma certeza. Almada sempre foi uma delas, até que deixou de ser. Nos últimos meses, a rotina de milhares de moradores passou a incluir notificações de cortes, torneiras que falham ao amanhecer e planos domésticos feitos ao ritmo das oscilações da rede. Quando um bem essencial se torna instável, a cidade inteira sente o impacto.

Essa fragilidade não é súbita. Tem causas, tem números, tem história, e tem respostas que agora começam a ganhar forma.

Em 2017, Almada confrontou-se com um diagnóstico severo: perdas de água classificadas como insatisfatórias pela ERSAR, com valores que ultrapassavam os 400 litros por ramal/dia nos subsistemas do Pragal e de Brielas. Eram centenas de milhares de metros cúbicos que nunca chegavam às casas, às escolas, aos cafés. Perdiam-se no subsolo, em roturas sucessivas, numa infraestrutura envelhecida e pressionada.

Iniciou-se então um ciclo de reabilitação que ainda decorre. Mas redes antigas não rejuvenescem por decreto, exigem obras, tempo, investimento e uma gestão capaz de lidar com a pressão crescente.

Os dados mais recentes mostram um serviço que mantém padrões elevados de qualidade da água, 99,97% de água segura, suportada por milhares de análises laboratoriais. Mas qualidade não é continuidade.

Em 2025, os piquetes de água e saneamento realizaram 7.321 intervenções. Em 2023, Almada tinha 877 km de condutas, muitas ainda em processo de renovação. Cada intervenção é um sinal: a rede está sob esforço; e esse esforço traduz-se em falhas.

Quando a cidade cresce, quando o consumo dispara, como está a acontecer este verão, com temperaturas persistentemente elevadas, e quando as infraestruturas envelhecem mais depressa do que são renovadas, o resultado é o que Almada tem vivido: cortes localizados, operações de emergência, e pressão pública crescente.

Uma torneira seca não é apenas um incómodo técnico. É a mãe que não consegue preparar o pequeno-almoço. É o idoso que não pode tomar a medicação com água. É o restaurante que perde clientes. É o trabalhador que chega atrasado porque teve de improvisar.

É, sobretudo, a sensação de que algo básico não deveria falhar — e de que a confiança no serviço público não pode ser intermitente.

Perante o aumento excecional do consumo e a pressão inédita sobre a rede, os SMAS Almada ativaram o Plano de Contingência, que deve reforçar a monitorização e a implementação de medidas extraordinárias como por exemplo: Gabinete de Crise em funcionamento permanente; redução da pressão da água entre as 00h00 e as 06h00; camiões-cisterna posicionados nas zonas mais críticas; fiscalização porta a porta em áreas com consumos anómalos e não faturados; monitorização reforçada com drones, inspeção interna de condutas e análise de dados de satélite; articulação com Juntas de Freguesia; diligências urgentes para novos furos de captação e interligações com sistemas vizinhos; e proteção de equipamentos sensíveis: unidades de saúde, lares, estruturas sociais.

É uma resposta que combina engenharia, gestão e urgência, mas também comunicação transparente, porque a confiança pública é tão essencial como a água.

Os SMAS Almada têm hoje mais meios, mais digitalização, mais capacidade técnica e uma estrutura de gestão focada na resiliência. Mas também enfrentam uma cidade mais exigente, mais informada e menos tolerante a falhas.

A entrada do novo Conselho de Administração abriu a oportunidade de reconstruir a confiança, acelerar a renovação das redes, reforçar a fiscalização e assumir que o abastecimento de água é um contrato social, não apenas um serviço.

Almada não pode habituar-se a cortes. E os SMAS não podem permitir que a água se torne notícia pelas razões erradas.

O desafio é grande, mas a resposta já começou, e será tão forte quanto a capacidade de unir gestão, tecnologia, fiscalização, investimento e responsabilidade pública.

Pedro Dias Pereira

Advogado e ex-deputado Municipal eleito pelo PS na Assembleia Municipal de Almada.

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