Nova era na Casa da Cerca: Cláudia Ramos estreia-se com quatro exposições
Nova curadora do centro de arte contemporânea de Almada apresenta propostas até Novembro
A Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea inaugura, a 18 de Julho a partir das 18h, a sua nova temporada artística. O momento é duplamente simbólico: assinala a apresentação simultânea de quatro novas exposições e marca a estreia de Cláudia Ramos como curadora oficial deste espaço almadense. A nova programação estende-se até 22 de Novembro, com propostas que desafiam o olhar sobre o tempo, a matéria e o espaço, cruzando diferentes linguagens visuais e estéticas. A entrada é gratuita.
Na Galeria Principal, o destaque vai para o artista Rui Calçada Bastos com a exposição “Segundo Sono”, que ancora o percurso expositivo desta temporada. A mostra reúne obras em pintura, escultura, desenho e fotografia, que exploram estados de suspensão, transição e elevação. “Segundo sono” propõe assim, uma aproximação demorada à imagem, à matéria e à perceção. As obras abrem um campo de relações onde cada forma parece surgir no limiar da sua própria revelação.
Já o espaço singular da Cisterna acolhe a intervenção de Edgar Massul, intitulada “Outra sombra, 2026”. Esta é uma experiência sensorial de penumbra, silêncio e contemplação. A ideia de umbria — a sombra como lugar sensível — orienta uma obra que trabalha com a luz natural, a adaptação lenta do olhar e a possibilidade de recolhimento. A escolha dos materiais revela uma atenção ao tempo e à natureza: o tronco de Acacia dealbata, espécie invasora que ameaça os ecossistemas autóctones, introduz uma dimensão ecológica; os tecidos encontrados, em linho usado, atravessam o lugar com a presença de um outro tempo. Entre simplicidade e imperfeição, outra sombra constrói um encontro íntimo entre matéria, luz e sombra.
A Galeria do Pátio recebe a delicadeza e a força de Catarina Gentil na mostra “O meu suspiro é nuvem da terra”. A exposição nasce de uma atenção ao que é fino, sensível e permeável. A partir de matérias e imagens associadas ao abrigo, à pele e ao jardim, a artista aproxima-se daquilo que nos envolve sem nos encerrar. As obras parecem procurar uma espessura mínima, uma superfície capaz de proteger sem impedir a respiração, de guardar sem cortar a relação com o exterior. A fragilidade não surge como vulnerabilidade passiva, mas como uma forma de estar no mundo: ver, sentir e respirar através do que nos rodeia.
Por fim, na Sala de Leitura do Centro de Documentação e Investigação Mestre Rogério Ribeiro, o público pode visitar “Cada dia é um novo rio”, o mais recente núcleo de trabalho assinado por Pedro Morais (1944-2018). A exposição reúne materiais pertencentes ao seu espólio, em particular ao núcleo relacionado com a experiência pedagógica Atelier Livre AT.RE, desenvolvida entre 1979 e 1994. Artista plástico e figura singular da arte contemporânea portuguesa, Pedro Morais desenvolveu uma práctica artística e pedagógica marcada pela atenção ao fazer, ao tempo e à transformação. Os materiais agora reunidos permitem aproximar o Atelier Livre enquanto espaço de experimentação e liberdade, onde a criação artística se articulava com formas de partilha, experiência e pensamento em comum. A mostra procura activar, a partir do arquivo, um campo de relações entre documentos, processos e modos de transmissão. “Cada dia é um novo rio” propõe uma leitura em movimento, onde cada sinal abre uma nova possibilidade de encontro.
Nova curadora na Casa da Cerca
Cláudia Ramos assumiu muito recentemente as funções de coordenação artística e curadoria no Museu de Srte Contemporânea de Almada (Maio de 2026). A temporada de exposições que se inaugura hoje, marca precisamente a sua estreia absoluta à frente da programação da Casa da Cerca.
Além destas quatro exposições que agora começam, Ramos integra activamente júris de projectos municipais da Câmara Municipal de Almada (CMA), como a recém-lançada Open Call para as Residências Artísticas da Trafaria (cujas candidaturas decorrem até Agosto de 2026)
Antes de Cláudia Ramos assumir o cargo, a direcção artística e a programação de artes visuais da CMA, que inclui a Casa da Cerca, a Galeria Municipal e o Convento dos Capuchos, estiveram sob a responsabilidade de Filipa Oliveira, entre 2018 e o início de 2025.
Filipa Oliveira deixou as funções municipais em Almada porque foi nomeada, em concurso público lançado pela empresa pública Museus e Monumentos de Portugal (MMP), para assumir o cargo de directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC), em Lisboa.
Cláudia Ramos é agora a responsável por liderar a arte contemporânea local, desenhar novos itinerários de arte pública e gerir a programação tanto da Casa da Cerca como da Galeria Municipal de Almada.
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