Viva a nova Junta da Costa da Caparica!
O PS não está a tentar melhorar a Costa. Está a tentar reconquistar o “lugar” à força do barulho. E isto não é só feio. É revelador.
O que me leva a escrever este texto não é um detalhe, nem uma medida em particular. É o todo. É o padrão. A repetição. A reação quase automática de quem, como o PS, passou anos a tratar a Costa da Caparica como território “garantido” e, agora, não consegue lidar com o facto de a democracia — essa velha chatice — ter feito o que deve fazer, isto é, ter permitido alternância na governação.
O PS perdeu a Junta de Freguesia da Costa da Caparica e o PSD ganhou. A Vanessa Krause foi eleita presidente. Legítima, democraticamente, pelas pessoas. E desde esse momento, em vez de se assistir a uma oposição adulta e responsável, temos visto — de alguns setores habituados à gestão socialista — uma coisa muito diferente: uma campanha de desgaste, um ruído permanente e uma tentativa quase infantil de transformar cada decisão numa polémica e cada gesto numa afronta.
Ou seja, o PS não está a tentar melhorar a Costa. Está a tentar reconquistar o “lugar” à força do barulho. E isto não é só feio. É revelador. Porque há uma frase que explica muita coisa: a alternância incomoda mais do que os problemas. Alguns preferem que a freguesia continue com dificuldades, desde que seja a sua gestão a mandar. E isso diz tudo sobre prioridades.
A Vanessa Krause não foi nomeada num gabinete. Não caiu ali por acaso. Foi votada. Foi escolhida. E o que muitos críticos parecem ter dificuldade em aceitar é simples: a Junta não mudou por capricho, mudou porque os caparicanos quiseram mudança.
Mas não, para o PS e para alguns dos seus satélites, a Costa só está “bem” quando o PS governa. Tudo o resto é suspeito. Tudo o resto é incompetente por definição. E se for preciso inventar polémicas para alimentar essa narrativa, inventam-se.
Vimos isso com as iluminações de Natal. A Junta tomou posse a 4 de novembro e, segundo esclarecimento público, não encontrou planeamento iniciado nem verba prevista para iluminações. Ora, isto pode desiludir quem queria ver luzinhas em todo o lado — e eu percebo o lado emocional da coisa — mas convenhamos: quem anda minimamente atento à gestão pública sabe que este tipo de contratação exige tempo, planeamento e dinheiro definido antes.
O que fez a nova presidente? Explicou, pediu compreensão e recusou criar uma dívida só para fingir que estava tudo controlado. E o PS, em vez de fazer o que se esperaria de um partido responsável — reconhecer que a transição tem heranças e tempos e assumir as suas responsabilidades — preferiu fazer o que sabe fazer melhor: dramatizar, insinuar, incendiar.
Depois veio a escola secundária. E foi a mesma receita: cortar uma frase, inflamar a opinião pública, colocar palavras na boca da presidente e gritar “escândalo”. Mas a Vanessa Krause veio esclarecer uma coisa que não devia sequer precisar de esclarecimento – defende uma escola secundária na Costa, mas não vai fingir que isso se resolve com um post nas redes sociais ou uma indignação. Exige estudo, prioridade e enquadramento de competências — porque uma Junta não constrói uma escola por decreto, nem por bravatas. E acrescentou aquilo que o PS gosta de fingir que não vê – há escolas existentes com necessidades urgentes, e governar implica escolher o que se resolve primeiro, com seriedade.
Isto chama-se responsabilidade, mas para o PS responsabilidade é pouco útil. Não rende manchete. Não serve para alimentar o “já está tudo a correr mal”. E, sobretudo, não serve para esconder um facto político central – perderam a Junta. E isso, para muitos, é imperdoável.
O que me impressiona é a coragem com que alguns socialistas falam de “gestão” e de “sensibilidade”, como se o seu histórico na freguesia tivesse sido uma coleção de milagres. Como se a Costa não tivesse passado anos a acumular problemas de limpeza, desorganização do espaço público, degradação visível em várias zonas, sensação de abandono em vários pontos da freguesia e uma lentidão crónica em responder ao que é básico.
Mas agora, de repente, descobriu-se um padrão curioso: tudo é urgente, tudo é dramático, tudo é “inadmissível”… desde que seja para atacar o PSD. E não foram poucos os ataques machistas de que já vi a nova presidente ser alvo por parte de alguns autarcas e ex-autarcas de outros partidos.
Há, de facto, um grau de descaramento político que chega a ser comovente. E é aqui que vale a pena puxar pela memória — essa coisa que tanta gente perde quando convém. Houve um tempo, ainda recente, em que a Costa esteve envolvida num caso grave de desvio de verbas. E nessa altura, curiosamente, não se viu esta fúria moral diária. Não se viu esta indignação em loop. Não se viu esta urgência em “defender a transparência” com microfones e histeria.
Nessa altura, o essencial era empurrar com a barriga, fingir que não se sabia, falar pouco, desconversar e tentar salvar o que interessava: o aparelho e os tachos do PS. Mas hoje, quando há uma presidente que tomou posse há pouco tempo e está a pôr ordem na casa já se exige perfeição. Agora já se exigem milagres. Agora já se exige que tudo esteja resolvido no primeiro mês.
O PS tem um talento muito particular: governar anos sem resolver, mas criticar dias como se fossem séculos. Só que há um problema para o PS — e é um problema que lhes dói muito mais do que qualquer comunicado: a Costa está a começar a ver diferença. Porque, apesar do ruído e da gritaria, aquilo que já se nota no terreno é trabalho. E isso, ao contrário das opiniões, não se inventa.
A Junta está a fazer um excelente trabalho ao nível da limpeza, do corte de ervas, do cuidado do espaço público e do reforço de uma presença mais organizada na freguesia. Nota-se mais atenção, mais resposta, mais método. Nota-se uma vontade real de tratar o básico como prioridade — e não como “detalhe menor”. E o básico, na vida real, é o que muda a vida das pessoas.
O básico é o que faz um residente sentir que a freguesia está cuidada. O básico é o que reduz a degradação, melhora a segurança percebida, valoriza o comércio local, devolve dignidade ao espaço público e mostra respeito por quem cá vive todo o ano.
Claro que não está tudo feito. Ninguém sério dirá isso. A Costa tem desafios estruturais e exigirá tempo. Mas a verdade é esta – há um estilo de governação que começa a ser visível. E esse estilo é exatamente o oposto do que o PS queria que acontecesse. Porque se a Vanessa Krause fizer um bom trabalho, o PS perde o seu maior argumento – o de que só o PS pode governar. E talvez seja por isso que estão tão nervosos.
Eu não peço que gostem da Vanessa. Peço apenas que tenham a honestidade mínima de fazer uma coisa rara na política local: esperar para avaliar. E, já agora, peço que o PS faça outra coisa ainda mais rara – aceitar que perdeu e ter a dignidade democrática de não transformar cada semana num teatro. A Costa da Caparica não precisa de sabotagem política. Precisa de gestão. Precisa de seriedade. Precisa de trabalho. E é exatamente isso que começa a acontecer.
Viva a Vanessa Krause! E viva a alternância democrática! A mudança não deve ser uma polémica. Deve, isso sim, ser uma oportunidade.
Almada Online, Crónica, David Cristóvão, Opinião, PSD

