2025: Natureza em causa

2025 fica marcado por vários retrocessos a nível global, nacional e local nos dossiers ambientais mais importantes. 

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A nível europeu, o Pacto Ecológico Europeu apresentado pela Comissão Europeia em dezembro de 2019, cujo objetivo era transformar a União Europeia numa economia neutra em carbono até 2050, com metas intermediárias para 2030, incluindo a redução de pelo menos 55% das emissões de gases de efeito estufa, está longe de ser implementado em toda a sua ambição.

Este pacto revolucionário iria colocar a Europa na liderança de um futuro mais saudável e justo para todos, servindo de exemplo para uma transição mais do que necessária de um sistema económico de crescimento contínuo e infinito, para um sistema baseado na recuperação de recursos e ecossistemas, assegurando a prosperidade económica, a saúde e o bem-estar de todas as pessoas.

Mas a partir de 2022, as crises externas – especialmente a guerra na Ucrânia, a crise energética e a inflação alimentar – começaram a ser usadas como justificação para adiar ou suavizar certas medidas. Paralelamente, diversos setores estratégicos, como a agricultura, a pecuária e o comércio internacional exerceram pressão crescente sobre as instituições europeias, defendendo flexibilizações regulatórias que atendam aos seus interesses económicos.

O efeito combinado destas forças teve e tem implicações estratégicas relevantes: por um lado, fragiliza as ambiciosas metas do Green Deal, colocando em risco a capacidade da União Europeia de liderar a transição ecológica. Por outro, acarreta o risco de perda de liderança, ao mostrar uma contradição entre o discurso ambiental progressista e a prática política concreta. Cinco anos após o início do Pacto Ecológico Europeu, a UE continua a enfrentar o enorme desafio de conciliar pressões económicas e políticas internas com a necessidade de manter a sua credibilidade e liderança na agenda ambiental global– e estamos todos a perder com esta indecisão.

Em Portugal, a reboque da Europa e fruto das pressões internas, vive-se um equilíbrio instável — avanços normativos e ambições de proteção coexistem com retrocessos, omissões ou decisões com impactos negativos para a natureza e para as pessoas.

A relevância do ambiente manteve-se nos últimos anos no discurso político, diluindo-se, no entanto, na ação efetiva que está cada vez mais oscilante e vulnerável a pressões.

E em Almada, como foi 2025?

2025 confirmou a tendência de 2024 – crescente aumento de lixo acumulado junto a contentores e nas ruas de todas as freguesias, mostrando a deficiente recolha de lixo e gerando graves problemas de higiene urbana, tais como pragas de ratazanas e baratas. Na maioria das ruas do concelho vemos, a céu aberto, lixeiras que permanecem dias e dias sem qualquer intervenção por parte do município. Ruas não são varridas e espaços verdes não são cuidados há meses. 

Continuamos a viver numa contradição: um concelho que se diz palco de uma biodiversidade magnifica que é preciso restaurar e proteger e que ambiciona cumprir metas de sustentabilidade, mas no dia a dia expõe os seus munícipes a um ambiente urbano degradante onde operações elementares como recolha do lixo (e de monos), gestão responsável de espaços verdes, manutenção das ruas limpas, etc, etc, são uma miragem.

Infelizmente, este cenário tem tendência a agravar-se, face ao retrocesso no contexto social que observamos presentemente no concelho. Um elevado número de sem abrigos deambula e dorme, muitas vezes, paredes meias com apartamentos que custam largos milhares de Euros. A resolução deste problema social está deveras comprometida, já que as instituições do concelho que deveriam sinalizar e dar resposta a estas questões parecem adormecidas. Claro que aumenta o lixo, o descuido pelos espaços comuns e as pragas que põem em causa a saúde pública.

2026 precisa de ser encarado com realismo e compromissos de curto, médio e longo prazo pois a afirmação deste concelho dependerá de manter e reforçar políticas climáticas, de conservação e restauro da Natureza, mas prioritariamente e também de gestão e recolha de lixo, de gestão e manutenção de espaços verdes, de educação ambiental dos munícipes e de resolução dos problemas sociais que enfrentamos e que têm impacto no meio ambiente.

E isso requer compromisso e investimento financeiro que garantam que os planos não fiquem só no papel. Só assim Almada poderá afirmar-se como um município capaz de proteger e restaurar efetivamente a sua riqueza natural, e trazer segurança, bem-estar e prosperidade a todas as pessoas que aqui habitam.

Ângela Morgado

Directora Executiva da WWF Portugal (World Wide Fund for Nature). Socióloga. Almadense.

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