O seu nome é LIA!
Em Julho, nesta entrada do mês, não posso deixar de dedicar-me ao Festival de Teatro, escrevendo sobre o maior e até mais internacional acontecimento em Almada. Além da excelente programação de 4 a 18 de Julho, destaco a alegria de saber que Lia Gama é a figura homenageada no 42º Festival.
Mui querida e admirada Actriz de há tantos que não lembro exactamente desde quando…Em 1975, seguramente com a sua Tatiana, desempenho marcante, em “Os Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki , no Teatro da Cornucópia, com Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, na encenação deste. A que se seguiram “Ah Q’”, de Jean Jourdeil, Casimiro e Carolina, de Ödon Von Horvath. Em 1978 (conferi a data), na personagem de Anna Sergeevna em “A Senhora do Cãozinho,” o conto de Anton Tchekhov tornado teatro para a televisão, por Jorge Listopad.

Ainda estou a ouvi-la, com que alma!
“( …) Este mar luminoso e esta lua grande e vermelha que nos viu nascer e crescer e tornamo-nos amantes. Amantes! Não é nada bonita a palavra, mas é quente, verdadeira, faz vertigens… “
E bem sei do sonho que levou a rapariga destemida, do Fundão, a deixar a família beirã sem quaisquer antecedentes artísticos, prosseguindo o desejo de ser actriz. Ainda adolescente, depois de empregos fortuitos (no Porto, creio), entrou na capital pela mão de Vasco Morgado numa peça com Laura Alves, no Teatro Monumental (onde viria a trabalhar muito). E, profissionalmente, em 1963, na comédia “Vamos Contar Mentiras”, pequeno papel, com Raul Solnado, Armando Cortez e Florbela Queiroz. Faltava-lhe um nome de actriz.
Inspirada na obra “Leah e outras histórias”, de José Rodrigues Miguéis, o desejo crescia- lhe de ser Leah! E ao trazê-lo para a mesa de poetas, no desaparecido Café Monte Carlo, logo Carlos de Oliveira se lhe adiantou e sugeriu LIA. Assim ficou. É uma história verdadeira tão bonita, contada por ela, que não podia deixar de aqui também a contar.

Vejo que a origem Leah tem qualquer coisa de “leo”, paralelo à energia e ao temperamento da actriz. O que podem realmente as palavras? Neste caso, tudo a ver com ela, que ainda adolescente já era influenciada pela Literatura. Conhecia a importância das palavras que estão escritas nos livros e, como tal, já praticava o verbo ler, lia!
Continua a ler muito, sobretudo poesia portuguesa. No feminino, privilegia Sophia. Com que verdade sente e diz o poema de 20 de Maio 1974, assinado pela poetisa, em plena data histórica do País.
“Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar
Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção —
Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste”.
Mas se de teatro sou convocada para uma crónica, direi alguns dos maiores autores que representou: Shakespeare , Gorki, Beckett, Genet, Sartre, Fassbinder e tantos outros, como entre nós José Cardoso Pires e Bernardo Santareno.
E dos encenadores com quem trabalhou, destaco os que com ela vi. Há mais tempo, afinal, do que o que comecei por lembrar… No TEC, dirigida por Carlos Avilez, a partir de 68, com importante reportório, creio nada me ter escapado, desde o “Rei Lear”, de Shakespeare, ao “O Balcão”, de Genet e “O pecado de João Agonia”, de Santareno. Em 1973, “Oh papá, pobre papá, a mamã pendurou-te no armário e eu estou tão triste “, de Arthur Kopit /encenação de João Lourenço, na Casa da Comédia. Onde mais tarde voltaria (1978) para “As Saudades”, peça de teatro musical, de Ricardo Pais. No saudoso Teatro da Graça / Carlos Fernando, formidável em “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Fassbinder, ou “O País do Dragão”, de Tennessee Williams; e ainda “Huis Clos”, de Sartre, na encenação de Listopad. Com Jorge Silva Melo, na formação dos Artistas Unidos, em 95/96 , “António, um rapaz de Lisboa” e muitos dos espectáculos que se seguiram, sempre com encenações do amigo Jorge! De volta ao TEC, 20 anos depois (2018), pelo chamamento de Carlos Avilez, é na peça “Peter e Alice”, de John Logan, entre o mito e a realidade, Alice Lidell, que inspirou a Alice no País das Maravilhas.
E no cinema desde Oliveira a Alain Tanner. Mas é com Fonseca e Costa, que ganha notoriedade, além de “Sem Sombra de Pecado”, é quase exclusivamente recordada pela criação da sua Rita, no “Kilas, o Mau da Fita”, uma artista de variedades conhecida pela Pepsi Rita. Êxito,que de certo modo a irrita, chegando a afirmar que preferiria não ter ficado com o rótulo dessa personagem, e na sua impulsividade reclama a importância de outros filmes, com mais realizadores, Oliveira, Fernando Lopes, Solveig Nordllund, Seixas Santos, Joaquim Leitão, João Botelho, Sérgio Tréfaut.
Mas dividida entre o teatro, o cinema, a televisão, quem da geração 80 não se lembra de a ouvir cantar canções de amor no Frágil? E a eterna “Balada de Rita”, de Sérgio Godinho? e Kurt Weil, de Surabaya Johnny? Ou a azougada nocturna no After Eight ou no Lontra ou na Drogaria Ideal, aqui a cantar Mulheres de Calças, três: Mirita Casimiro, Luísa Santanela e Irene Isidro.
Mas também no Teatro Nacional “As Fúrias”, de Agustina Bessa-Luis, ou a passagem pelo teatro desmontável com a Companhia Rafael de Oliveira, o Teatro ao Largo, enfim, o teatro de rua no verão, e Pirandello e Sófocles e Harold Pinter, José Vieira Mendes, com encenações do amigo sempre Jorge!

A rapariga esbelta, bela mulher, que se atirou sempre para frente e quis ter um filho nascido de uma grande paixão e que tem dois netos, um deles nos primeiros passos de actor, todavia, sente-se jovem! Ainda que o corpo tenha vacilado e ganho peso, sente-se jovem!
Ela, a própria Lia, diz não ter lido nem um décimo do que queria já ter lido!
E guarda prémios pelo “Kilas, O Mau da Fita”, e medalhas, a Medalha do 25 de Abril pela Associação Portuguesa de Críticos, a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, Prémio Sophia – Carreira ( 2019); é ainda Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique, pela Presidência da República.
Todavia, o que mais a emociona é ser lembrada na 8ª Década da Vida, por um grande Festival que homenageia o Teatro! E quando se julgava esquecida, desamparada ainda pelas mortes de Carlos Avilez e Jorge Silva Melo.
Talvez uma porta se te abra agora, para voltares a ser chamada a representar, querida Lia. Qual memória a tua, vivaz, na mais fresca voz !
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