Almada, onde a mobilidade anda a pé
Vivemos no concelho que cresceu mais depressa do que as estradas, e continua a crescer.
Há quem diga que viver em Almada é viver “perto de tudo”. E é verdade. Lisboa está logo ali, a dois minutos de teleférico… se algum dia o teleférico existisse. Na prática, a proximidade mede-se em horas, não em quilómetros. Sobretudo de manhã, quando a Ponte 25 de Abril, como alguém já disse, se transforma no maior parque de estacionamento improvisado do país.
A travessia é um ritual quase litúrgico. Primeiro, a procissão de carros que serpenteia da Costa até ao Pragal, de Almada até ao Pragal, do Feijó até ao Pragal. Como o povo já diz: “todos os caminhos vão dar ao Pragal”. Depois, a romaria para entrar na ponte, onde todos avançam com a fé de que hoje — talvez hoje — o trânsito flua. Mas a ponte, sábia e paciente, sabe esperar. E nós esperamos com ela.
Almada é um concelho vibrante, jovem, cheio de vida. Mas também é um concelho que cresceu como quem monta uma casa à pressa: primeiro os quartos, depois a sala, e só no fim alguém se lembra que talvez fosse boa ideia deixar espaço para corredores.
As urbanizações multiplicaram-se, os centros comerciais floresceram, os serviços expandiram-se. Mas a mobilidade ficou ali, parada no tempo, como um elétrico antigo que ninguém se atreve a substituir. O resultado é simples: demasiadas pessoas dependem do carro porque as alternativas, embora existam, não chegam onde deviam, quando deviam, como deviam.
Os transportes públicos até são bons, mas insuficientes.
O Metro Sul do Tejo é uma boa ideia — e continua a ser uma boa ideia, mesmo vinte anos depois. Mas falta-lhe aquilo que falta a muitas boas ideias: continuidade. Há zonas inteiras do concelho onde o metro é uma miragem e o autocarro passa com a pontualidade de um cometa.
E depois há a travessia do Tejo. O barco é rápido, confortável, mas não é eficiente, e não serve quem vive longe das estações fluviais. O comboio da Fertagus já não é fiável, e deixou de ser humano. E a ponte… bem, a ponte é aquilo que todos conhecemos: um funil que tenta engolir mais carros do que consegue digerir.
Falta o Túnel imerso Algés-Trafaria.
O problema da mobilidade em Almada não é apenas local, é estrutural. A ponte é o único corredor rodoviário direto para Lisboa. E quando um concelho inteiro depende de uma única artéria, qualquer soluço vira convulsão.
Obras? Geram filas. Acidentes? Paralisam tudo. Uma viatura avariada? O caos instala-se com a rapidez de um boato.
Enquanto isso, milhares de pessoas reorganizam a vida em função do trânsito: acordam mais cedo, chegam mais tarde, jantam mais depressa. A mobilidade deixa de ser logística e passa a ser destino.
No entanto, há um futuro que Almada merece. Mas tarda em chegar. A solução não é simples, mas é clara.
Almada precisa de mobilidade integrada, não apenas remendada. Precisa de transportes públicos mais frequentes e mais abrangentes, que cheguem aos bairros onde hoje só o carro chega; intermodalidade real, onde mudar de transporte não seja um castigo; infraestruturas cicláveis seguras, que não terminem abruptamente “no nada”; planeamento urbano que não existe (há um fingimento de planeamento urbano); uma estratégia metropolitana, porque Almada não vive isolada — vive em relação com Lisboa.
A ponte continuará a ser a ponte. Mas Almada não tem de continuar refém dela, porque a mobilidade é, sem qualquer dúvida, qualidade de vida. No final, a mobilidade urbana não é sobre carros, autocarros ou carris ferroviários. É sobre tempo. Tempo que se perde, tempo que se ganha, tempo que se vive. Almada merece mais tempo vivido e menos tempo parado.
Almada Online, Crónica, Opinião, Pedro Dias Pereira, PS



