Almada, Capital Portuguesa do Entretanto
Em Almada não há problema sem resposta. Há apenas uma pequena tendência para a resposta chegar depois do problema.
Há imagens que dispensam palavras, discursos ou comunicados de imprensa. Na noite de 11 de setembro reuniu-se, extraordinariamente, a Assembleia Municipal de Almada, na Sala Pablo Neruda, no Fórum Romeu Correia. Estavam os deputados municipais. Estava a Câmara – à exceção da Presidente. Estavam os microfones, as propostas, os cidadãos e, suponho, a democracia. As janelas é que estavam tapadas.
Pode, naturalmente, ter sido coincidência. Em Almada acontecem coincidências com um extraordinário sentido de oportunidade. É que dois meses antes, na Assembleia Municipal extraordinária sobre a crise da água, a mesma Sala Pablo Neruda tinha transbordado de cidadãos. Houve quem não conseguisse entrar. Houve protestos no átrio. Houve polícia. Houve até polícia de choque. Houve munícipes encostados às janelas para poderem espreitar a sessão.
Escrevi então sobre uma Assembleia Municipal onde parecia existir maior capacidade para acomodar agentes policiais do que munícipes indignados. Em setembro encontrou-se, finalmente, uma solução estrutural. Não para a água, evidentemente, mas para as janelas.
Os estores das janelas voltadas para o átrio estavam fechados e, com eles, desapareceu aquela desagradável possibilidade de quem estivesse cá fora ser visto por quem estava lá dentro. Não conheço, naturalmente, a razão para os estores estarem fechados. Limito-me a constatar a notável eficácia arquitetónica da solução.
Em julho descobrimos que a sala era demasiado pequena para a democracia. Em setembro descobrimos que as janelas eram demasiado transparentes. A cena tinha, aliás, qualquer coisa de reunião clandestina. Faltava apenas um cavalheiro de gabardina à porta, uma senha previamente combinada e a troca discreta de um envelope dirigido à autarquia.
Foi também inspirado por tão particular manifestação de cultura democrática que recebi com entusiasmo a notícia de que Almada se candidata a Capital Portuguesa da Cultura 2028 – certamente para ajudar a promover o famoso Museu da Água.A apresentação oficial da candidatura está marcada para 19 de setembro, na Incrível Almadense.
Acho, no entanto, que poderíamos dar cartas também numa outra categoria. Cultura temos – no Museu da Água. Teatro também – na Assembleia Municipal. Drama, seguramente – nos serviços dos SMAS. Farsa já tivemos – nos Paços do Concelho. Guerra de sucessão também – no próprio Partido Socialista. Há personagens recorrentes, figurantes, desaparecimentos, reaparecimentos, intrigas palacianas e uma capacidade invejável para prolongar qualquer enredo por várias temporadas. Por tudo isso, diria que o título que Almada verdadeiramente conquistou em 2026, sem concurso, sem júri e, aparentemente, por aclamação, é outro – Capital Portuguesa do Entretanto.
É que o Entretanto é uma forma superior de tempo administrativo. É aquele lugar misterioso onde nada está propriamente resolvido, mas tudo está “em curso”; onde nada correu mal, mas existem “constrangimentos”; onde ninguém chegou tarde, porque está a ser “reforçada a capacidade de resposta”; e onde o futuro é sempre extraordinário, sobretudo porque ainda não chegou.
Vejamos a água. Depois de um verão em que milhares de almadenses aprenderam que abrir uma torneira podia ser simultaneamente um gesto doméstico e um exercício de fé, setembro trouxe-nos boas notícias. No dia 10, os SMAS anunciaram a aquisição de novos reservatórios com capacidade para mil litros, destinados a situações de contingência, nomeadamente em unidades de saúde, lares, escolas e bombeiros. É uma medida de prevenção perfeitamente legítima. A formulação é que merece ser apreciada: os reservatórios destinam-se a “reforçar a resiliência do abastecimento”. Confesso que adoro a palavra resiliência. Antigamente uma rede de água tinha água. Hoje tem resiliência. É progresso.
Pouco depois, os SMAS anunciaram também o reforço da deteção ativa de fugas, recorrendo, entre outras técnicas, à escuta do ruído provocado pela água quando escapa das condutas. Depois de um verão em que os almadenses procuraram água nas torneiras, os técnicos começaram a procurá-la pelo ouvido. É uma evolução admirável. Primeiro abríamos a torneira. Agora andamos de estetoscópio pelo concelho.
E há mais. O Governo determinou que a Agência Portuguesa do Ambiente e o Grupo Águas de Portugal apresentassem, no prazo de 120 dias, uma solução técnica para reforçar a segurança hídrica da Margem Sul, incluindo a possibilidade de abastecimento através de origens superficiais de Castelo de Bode e/ou do Tejo. Portanto, tranquilizem-se. A água vem aí. Apenas não sabemos ainda exatamente por onde, quando, em que quantidade ou através de que infraestrutura. Mas vem aí. Entretanto, temos reservatórios.
E é isto que distingue uma administração moderna de uma administração antiga. A antiga tentava evitar o problema. A moderna dá-lhe um nome técnico, cria um plano para o acompanhar e compra recipientes para mitigar as consequências. Em Almada não há problema sem resposta. Há apenas uma pequena tendência para a resposta chegar depois do problema.
E já que falamos de mobilidade da água, falemos também da mobilidade das pessoas. A mobilidade, de resto, tem ocupado bastante o meu pensamento. Há alguns dias estava no habitual para-arranca de quem regressa de Lisboa para Almada quando reconheci João Couvaneiro, presidente da Assembleia Municipal, dentro da viatura afeta à própria Assembleia Municipal, também ele apanhado no trânsito em direção à ponte. E aqui importa ser rigoroso. Não sei de onde vinha. Não sei onde tinha estado. Não sei que diligência autárquica eventualmente desempenhara. Não conheço em detalhe o regime aplicável à utilização daquela viatura. E, portanto, não afirmo aquilo que não sei. Sei aquilo que vi.
Enquanto milhares de almadenses regressavam de Lisboa de carro, autocarro, comboio ou barco, o presidente do órgão deliberativo do Município regressava também. No caso dele, com mobilidade institucional. Achei a imagem profundamente democrática. Todos presos no mesmo trânsito. Todos a contemplar a traseira do automóvel da frente. Todos unidos pela experiência coletiva de avançar quatro metros a cada três minutos. Talvez seja isto a verdadeira proximidade aos cidadãos – sofrer exatamente o mesmo para-arranca, mas com transporte institucional. Não retiro conclusões precipitadas.
Em Almada devemos aprender com os procedimentos administrativos. Primeiro observa-se. Depois pergunta-se. Depois aguarda-se. Depois pede-se um esclarecimento. O esclarecimento é encaminhado para o serviço competente. O serviço competente informa que a matéria se encontra em análise. Entretanto, o carro já atravessou a ponte.
Mas setembro ainda não terminou e as peripécias sucedem-se. Uma investigação do Almada Online revelou um vasto conjunto de medidas destinadas a responder aos riscos geológicos em Porto Brandão e na Arriba Fóssil da Costa da Caparica: 69 medidas para Porto Brandão e 31 para a Arriba Fóssil, envolvendo monitorização, drenagem, estabilização e diversas intervenções estruturais.
Aqui convém parar a brincadeira. Não há nada de cómico em casas em risco, famílias preocupadas ou movimentos de vertente.
Extraordinária é a sucessão dos acontecimentos. Primeiro foi a água. Depois, o Tejo. Agora mexe-se a terra. Escutam-se condutas. Monitorizam-se fissuras. Vigiam-se vertentes. Estudam-se novas origens de abastecimento. Compram-se reservatórios. Fecham-se estores. Se o ar começar também a apresentar anomalias, teremos finalmente completado os quatro elementos e Almada poderá candidatar-se não apenas a Capital Portuguesa da Cultura, mas a sede administrativa da mitologia grega.
E já que falamos de Cultura, setembro trouxe-nos ainda uma pequena obra de arte política. Na Câmara Municipal, a CDU votou favoravelmente a Estratégia Municipal para a Cultura. Poucos dias depois, essa mesma estratégia chegou à Assembleia Municipal. O Partido Socialista votou a favor. PSD e Chega votaram contra. Livre, Bloco de Esquerda e CDU abstiveram-se. A estratégia acabou aprovada com os votos socialistas. Reparem na beleza da composição.
Na Câmara, a CDU vota a favor. Na Assembleia, abstém-se. A mesma estratégia. O mesmo concelho. O mesmo partido. Outro edifício. É uma espécie de posicionamento político quântico – a CDU consegue estar simultaneamente a favor e a não estar propriamente a favor, dependendo do órgão autárquico em que a observamos. Schrödinger tinha um gato. Almada tem a CDU.
Não deixa de constituir um contributo relevante para a ciência política. Durante séculos julgámos que um partido tinha uma posição sobre uma proposta. Era uma conceção simplista, evidentemente ultrapassada. Em Almada descobrimos que a convicção política também pode depender da coordenada geográfica. Nos Paços do Concelho, a Estratégia Municipal para a Cultura é suficientemente boa para merecer um voto favorável. Uns dias depois, na Assembleia Municipal, já inspira apenas uma prudente e contemplativa abstenção.
Talvez seja isto a descentralização. Ou talvez seja apenas o Entretanto. Porque também aqui nada é propriamente uma coisa nem outra – não se é contra; também não se é exatamente a favor; está-se, politicamente, em curso. E talvez esta seja, afinal, a maior manifestação cultural desta governação PS-CDU – o teatro. Na Câmara representa-se uma cena. Na Assembleia representa-se outra. Num palco, a CDU levanta a mão. No seguinte, baixa-a. E o público, se os estores permitirem, tenta acompanhar o enredo.
Não deixa, por isso, de ser apropriado que Almada queira ser Capital Portuguesa da Cultura. O que merece algum estudo antropológico é a capacidade de uma força política que participa na governação municipal votar favoravelmente uma estratégia num órgão e, poucos dias depois, abster-se sobre a mesma estratégia noutro.
E chegamos, assim, à essência da Almada de 2026. Há cidadãos a protestar junto às janelas? Fecham-se os estores. Falta água? Compram-se reservatórios. Há fugas? Escutam-se as condutas. Há encostas instáveis? Monitorizam-se. A CDU vota a favor? Depois abstém-se.
A política municipal moderna deixou de procurar respostas simples. Uma resposta simples corre o risco terrível de ser compreendida pelos cidadãos. É muito mais seguro falar em resiliência, monitorização, mitigação, reforço, implementação faseada, soluções estruturantes, planos de intervenção e, quando nada disto bastar, encomendar um novo estudo destinado a acompanhar o estudo anterior. Assim ninguém pode dizer que nada está a ser feito. Está sempre alguma coisa a ser feita. Pode é não estar feita.
Nas outras cidades há presente e futuro. Nós temos presente, futuro e entretanto. O entretanto é quando a água já faltou, mas a redundância ainda está a ser estudada. É quando os cidadãos já protestaram, mas as janelas entretanto ganharam estores. É quando as encostas já preocupam, mas as medidas continuam em calendarização. É quando um partido já votou a favor, mas ainda não decidiu se continua verdadeiramente a favor. É quando o problema aconteceu ontem, a solução está prevista para amanhã e hoje recebemos um comunicado a explicar a extraordinária eficácia da resposta.
O futuro de Almada está, dizem-nos, a ser preparado, reforçado, monitorizado, estudado e planeado com enorme diligência.
A água virá. As fugas serão encontradas. As encostas estabilizar-se-ão. A coerência partidária, talvez um dia, também. Até lá, não se preocupem. Os estores fecham perfeitamente.
Entretanto, vivemos cá.
Almada Online, Crónica, David Cristóvão, Opinião, PSD

