A Paz, a sua defesa, a Assembleia Municipal de Almada, e o PS
Falemos de Portugal e dos portugueses e portuguesas, que hoje se confrontam com uma espiral imensa de dificuldades na sua vida quotidiana, que resultam diretamente dos conflitos e guerra aberta que prevalecem numa parte muito substancial do planeta.
O mundo vive uma brutal escalada de violência, imerso no discurso e na prática dos dirigentes e responsáveis políticos instalados no poder no chamado “mundo ocidental”, em que, para solução dos problemas e divergências, prevalece invariavelmente a opção pela ameaça e concretização de violência e hostilidade abertas, pelo lançamento e alimentação de conflitos armados, ou pelo bloqueio, ingerência e sancionamento económico e político de nações e povos.
O mundo assiste hoje a uma escalada sem precedentes de agressões militares em diferentes latitudes, alimentada essencialmente pelo poder instalado nos Estados Unidos da América, pelo estado sionista de Israel, pelos dirigentes da NATO e pelos dirigentes da União Europeia.
Agressões permanentes – de facto ou latentes –, violações da independência e soberania nacionais, prática declarada de genocídio sobre povos como o Palestiniano (em Gaza e na Cisjordânia), são hoje uma triste realidade com que a humanidade se confronta na Palestina, no Líbano, no Irão, no Iémen, na Somália, na Síria, no Sudão, entre outros (demasiados) pontos do mundo.
O mundo assiste – atónito nuns casos, conivente em muitos outros –, ao rapto, sequestro e prisão à margem de todas as leis vigentes, nacionais e internacionais, de presidentes legítimos de nações soberanas; assiste ao cerco económico e político criminoso – sucessivamente condenado pela esmagadora maioria da comunidade internacional –, a que agora se soma a ameaça não disfarçada de utilização da força das armas, de um pequeno país soberano das Caraíbas, Cuba; assiste ao bombardeamento indiscriminado de populações indefesas em diversos pontos do continente africano; assiste, até, a recorrentes ameaças de agressão, até ao momento circunscritas ao plano económico, a países supostamente poderosos (e aliados) na Europa.
O mundo assiste atualmente, ao apoio, mais do que isso, ao estímulo declarado ao prolongamento de uma guerra em plena Europa, uma guerra que nunca devia ter começado. Ao lado dos EUA e da NATO, os dirigentes políticos da União Europeia têm vindo a desempenhar um papel determinante no arrastamento deste conflito armado, ao isentar-se voluntariamente de qualquer iniciativa de procura de uma via diplomática para a resolução do conflito e de construção de uma Paz justa e duradoura, optando, ao contrário, por alimentar, através das palavras e do apoio material e financeiro a uma das partes do conflito, o discurso da guerra e do ódio, que conduz ao arrastamento da situação que permanece no terreno há mais de quatro anos.
Este estado de coisas a que o mundo assiste atualmente tem consequências. E consequências graves, muito graves!
Primeiro, para os povos e países vítimas diretas das agressões. Quem pode ignorar a destruição, a morte, a fome e a miséria – o verdadeiro genocídio –, instalados em Gaza pela força das bombas sionistas, sobretudo despejadas sobre populações inocentes e indefesas de civis desarmados? Quem pode ignorar o bombardeamento indiscriminado e a destruição de escolas, hospitais, serviços públicos diversos, edifícios de habitação, infraestruturas de abastecimento de bens essenciais, entre outras estruturas civis, a que todos os dias assistimos pelas televisões? Quem pode ignorar os muitos milhares de mortos e feridos, principalmente mulheres e crianças, que são as vítimas mais injustas e injustiçadas destes conflitos armados, e que também, invariavelmente à hora dos telejornais, nos entram pela casa dentro sem sequer pedir licença?
Mas consequências graves, muito graves, também para quem não está diretamente envolvido nos conflitos armados, mas que deles sofre efeitos e impactos de enorme dimensão.
Falemos de Portugal e dos portugueses e portuguesas, que hoje se confrontam com uma espiral imensa de dificuldades na sua vida quotidiana, que resultam diretamente dos conflitos e guerra aberta que prevalecem numa parte muito substancial do planeta.
O brutal aumento dos preços de bens essenciais, a reboque da escalada dos preços do petróleo nos mercados internacionais, traduz-se numa evidente e acentuada degradação das condições de vida, e sobretudo da qualidade de vida, de milhões de portugueses.
Esta degradação da qualidade de vida no nosso país, é consequência direta das opções belicistas e agressivas adotadas, também, pelo Governo de Portugal. Os portugueses vivem hoje muito pior, porque a opção política dos seus governantes não privilegia a solução dos problemas concretos do país, antes se enquadra na política de escalada armamentista e belicista que nos é imposta pelos centros do poder internacionais, e que coloca em causa o bem-estar e a própria vida de milhões de cidadãos.
Perante esta realidade muito negra do nosso quotidiano atual, é uma obrigação de todos os democratas, amantes e defensores intransigentes da Paz, do entendimento entre todos os seres humanos e povos, e da prevalência da procura de soluções pacíficas para todos os conflitos, que se unam em torno das iniciativas, todas elas, que genuinamente procuram contribuir para reforçar e ampliar o caudal daqueles que se opõem ao militarismo, à guerra e à violência, e procuram construir um caminho de concórdia e amizade entre os povos.
Foi precisamente este o objetivo da apresentação pela CDU, na última sessão da Assembleia Municipal de Almada, de um texto para deliberação singelamente titulado “Pela Paz!”, através do qual se pretendia colocar a Assembleia Municipal de Almada no grupo de entidades públicas que não apenas apelam à Paz, mas sobretudo adotam posições concretas e objetivas na luta por esse objetivo maior da condição humana.
Um objetivo frustrado!
Frustrado pelos votos da direita (PSD) e da extrema-direita (CH e IL), que se uniram no voto contra o texto da CDU, sem espanto nem novidade, rejeitando esta urgente necessidade de procura e construção de caminhos negociados para a Paz, e colocando-se assim, e uma vez mais, numa posição que favorece o prosseguimento e arrastamento da guerra, de todas as guerras.
E frustrado também, neste caso com surpresa (e sobretudo preocupação), pela abstenção do PS, uma posição que não pode ser lida senão como conivência com os senhores da guerra, que espanta porque vinda de um partido político que se afirma de esquerda, defensor da Paz e dos direitos humanos.
Objetivamente, o PS optou, mesmo que com enorme boa vontade, pensemos que o fez por omissão, em somar os seus votos aos votos da direita e da extrema-direita, contribuindo para inviabilizar a aprovação do texto apresentado pela CDU!
E quando olhamos a justificação para esta posição do PS, ficamos ainda mais surpreendidos (e preocupados). Citamos a gravação da intervenção da líder da bancada do PS na Assembleia Municipal para que não escape nada. Disse ela, “abstivemo-nos [PS] porque nos posicionamos convictamente a favor da paz, mas não podemos compactuar com a tentativa de branqueamento da guerra na Ucrânia e seus responsáveis, e esta moção tem quase uma imputação de responsabilidade pelo conflito à União Europeia, e tal não podemos acompanhar”, fim de citação.
Na base desta posição do PS está uma frase simples presente no texto da CDU: “assume particular gravidade a escalada belicista das potências europeias da NATO e da UE, intensificando a propaganda de guerra, agitando falsas ameaças externas para justificar a escalada armamentista, prolongando a guerra na Ucrânia e contrariando possibilidades de diálogo que possam abrir caminho a uma solução política para o conflito, à Paz e à segurança coletiva na Europa”.
Segundo a liderança da bancada do PS, esta frase, que não atribuiu quaisquer responsabilidades pelo conflito, apenas pelo seu prolongamento no tempo, e que corresponde, com rigor e objetividade, àquela que tem sido a política prosseguida pelos governos dos países da NATO e da UE (é bom lembrar-nos que todos esses governos, incluindo o de Portugal, decidiram aumentar brutalmente os respetivos orçamentos da defesa, leia-se, para a guerra…), é a justificação suficiente para que o PS impeça a Assembleia Municipal de Almada de expressar a sua posição em defesa da Paz.
Assumindo uma posição cegamente seguidista das orientações vindas dos poderes instalados na UE e na NATO (e nos EUA…) – como se não fossem forças de direita e extrema-direita as que prevalecem, de forma aliás esmagadora, nos órgãos dessas instituições internacionais, e como se a UE se tratasse de uma qualquer entidade investida de poderes divinos, detentora da verdade e razão absolutas, inatacável e que não pode ser criticada por nada nem por ninguém –, o PS falhou manifestamente no respeito pelo “
posicionamento convicto a favor da paz”, que a líder da bancada do PS diz que é a posição do seu partido, ela sim, na atabalhoada justificação que apresentou para a posição assumida pelo seu partido, tentando branquear as inegáveis responsabilidades que os poderes instalados em Bruxelas assumem neste conflito.
Ao assumir esta posição, o PS Almada prestou um mau serviço à causa da Paz! Facto que não pode deixar de justificar um profundo lamento por verificarmos que o PS opta por se colocar à margem da luta e dos esforços em defesa de soluções negociadas, diplomáticas e de paz para todos os conflitos internacionais, num momento em que todos esses esforços devem ser canalizados para esse objetivo.
Uma nota final. Ainda nesta sessão da Assembleia Municipal, um outro texto da CDU, este de saudação ao 50º aniversário da Constituição da República Portuguesa, justificou a rejeição da extrema-direita presente na Assembleia Municipal de Almada – votos contra do CH e abstenção da IL.
Mas neste caso, sem espanto; apenas confirmação, se tal fosse ainda necessário, de quais são as forças políticas que hoje se posicionam frontalmente contra as grandes conquistas democráticas do povo português plasmadas no texto constitucional, quais são, verdadeiramente, as forças políticas que rejeitam e combatem abertamente o caminho de progresso e de desenvolvimento de Portugal, dos trabalhadores e do povo português, que a Revolução de 25 de Abril de 1974 e a Constituição da República Portuguesa, aprovada e promulgada em 1976, consagram no nosso país.
Almada Online, CDU, Crónica, João Geraldes, Opinião

