Mulheres de Abril em Almada 

Hoje dou início a um novo espaço de opinião sobre história local contemporânea, centrada em perfis de mulheres com uma ligação ao concelho de Almada. Que nasceram, vivem, trabalham ou imigraram para esta cidade. Que valorizam este território de gente autêntica. Pretende-se inverter o ciclo da cápsula de invisibilidade em que muitas mulheres se encontram. Pessoas que se destacam ou destacaram pela sua vida singular e na forma como moldam a cidade.

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Não posso deixar de destacar uma das mulheres de abril da cidade de Almada. Este foi o tema da minha prelecção no dia 20 de abril na Escola Secundária Anselmo de Andrade, a convite das Professoras bibliotecárias, Eveline Monteiro e Laura Belo, a quem muito agradeço a oportunidade de falar com alunos de três turmas do 5º e 6º ano.

Hoje quero destacar a feminista ativista almadense e investigadora social Manuela Tavares. Após mais de 30 anos como professora no ensino secundário, a leccionar no concelho de Almada, Manuela Tavares continua o seu ativismo na ONG que co-fundou em 1976, a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), de apoio às vítimas de violência doméstica e de género, que conta com um centro de atendimento em Almada. Foi minha professora na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada.

Manuela Tavares defendeu em 2008 a sua tese de doutoramento, pioneira em Portugal, em Estudos do Género que deu origem à publicação do livro “Feminismos em Portugal – Percursos e Desafios”. 

Presta homenagem à sua filha, a bióloga Paula Tavares nascida no Pragal em 1972 e falecida em 8 de Setembro de 2009, num acidente, juntamente com a sua amiga e engenheira do ambiente Ágata de Sousa, através do trabalho na Associação para a Interacção Ambiental, Científica, Comunitária e Cultural Fragas de Aveloso, em S. Pedro do Sul, que nasceu da sua iniciativa, juntamente com outros amigos e familiares das duas investigadoras e biólogas. Esta associação inspira-se no legado intelectual e desta activista ambiental e da sua ligação afetiva à aldeia de Aveloso do Sul. Mulher de muitos sonhos, projectos e causas, esteve presente nas principais lutas pelos direitos das mulheres, que a sua jovem idade permitiu, certamente inspirada pelo trabalho da sua mãe.

Manuela Tavares divide o seu tempo entre a aldeia do centro do país e o Pragal, onde ainda vive, perpetuando o seu trabalho em prol das mulheres da sua vida. 

Notável que no 25 de Abril, com apenas 24 anos, com a filha pequena e um marido que sempre a apoiou nos seus ideais, criou com outras mulheres a comissão de mulheres do Pragal, que ocupou um palacete na zona, e criaram a Creche Popular para as crianças das mulheres trabalhadoras naquele bairro, hoje a AIPICA, com vários equipamentos no concelho. As mulheres do Pragal antigo criaram ainda o coro do Pragal e a Comissão de Moradores, encarregue de melhorias nas ruas não asfaltadas.

“Nasceu em Lisboa a 2 de julho de 1950 e veio viver para o Pragal, aos sete anos onde mora atualmente. Licenciou-se em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. A seguir ao 25 de Abril, esteve na Comissão de Mulheres do Pragal. Na noite de S. João ocupou um edifício para criar uma creche, que entrou em funcionamento logo em outubro desse ano, onde atualmente funciona a creche da AIPICA. Integrou o processo revolucionário, em que muitas mulheres participaram no arranjo do Pragal antigo. Organizou uma comissão de mulheres e fez campanha de alfabetização para as mulheres do bairro do Pragal onde vive.”

(…) Acompanhou os 30 anos de luta pela despenalização do aborto em Portugal. (…) *

“Os feminismos precisam de uma memória histórica”, escreveu num dos seus trabalhos de investigação social, que têm contribuído para o debate sobre os feminismos em Portugal. 

Hoje com 75 anos, Manuela Tavares continua a ser uma mulher de causas em modo combativo, como só assim vale a pena para se comemorar o 25 de abril, como escreveu José Pacheco Pereira há dois anos no jornal Público, na sua crónica com o título “Só vale a pena comemorar o 25 de Abril em modo combativo”. No passado 25 de Abril, vi o historiador no final da avenida da Liberdade com o seu cartaz, e dei-lhe os parabéns pela forma como combateu os valores do 25 de Abril no debate televisivo.

Também Manuela Tavares se bate ainda pelos valores da liberdade em prol dos direitos humanos das mulheres, seja na sua comunidade, como em geral. Vi-a este ano a descer a avenida da Liberdade junto ao estandarte da UMAR, na manifestação do Dia Internacional da Mulher. 

*Excertos do livro “Mulheres de Almada”, co-autoria Florbela Barão da Silva e Margarida Pereira-Müller, Emporium Editora, 2021

Florbela Barão Silva

Fundadora da ViewPoint PR, mestre em Comunicação, e consultora de Relações Públicas. Almadense.

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