História Batalha
Apesar do termo “História Batalha” ser utilizado por vezes de forma depreciativa por historiadores que, como eu, se dedicam mais a mudanças e permanências na sociedade, valerá a pena, neste mês de julho, lembrar algumas travadas em Almada. Muitas foram-no em momentos decisivos da História de Portugal.
A 24 de junho Almada tem a sua festa, comemorando o Dia de S. João, data em que supostamente teria sido conquistada aos mouros numa pequena batalha travada na Ramalha. O contexto é o do Cerco e posterior conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, em 1147. Como muitas tradições esbarra no muro da impossibilidade.
O Cerco de Lisboa inicia-se uns dias depois, a 28 de junho, e dura até finais de outubro. Almada terá sido conquistada durante, ou mesmo depois do Cerco, na altura escrevia-se pouco. A pequena batalha pode ter acontecido, mas não nessa data. Fica-nos o S. João, agora que nem se salta a fogueira, nem a procissão vem com carroças enfeitadas com canas de taberna em taberna, uma espécie de vingança sobre a apropriação cristã das festas pagãs do solstício.
Saltemos dois séculos e meio para outro cerco de Lisboa. Em 1384, D. João de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando e sucessora “legal” do trono de Portugal, invade Portugal e cerca Lisboa. Acaba derrotado pela peste, mas também pela resistência de Almada que impediu que o cerco se completasse pelo lado do Tejo. A maior dificuldade de Almada, que se manteve até ao século XX, era a água e dezassete almadenses foram incumbidos de ir buscar água, provavelmente à Fonte da Pipa, quando foram surpreendidos por uma força castelhana.
Camões descreve assim o recontro:
Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos, se defendem,
Fortes, de quatrocentos castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem.
Digno feito de ser, no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno!
Descontemos o exagero e também ao “castelhanos” o facto de se tratar também de uma guerra civil com portugueses de ambos os lados.
Em 1833, mais exatamente a 23 de julho era aqui travada uma batalha decisiva para a vitória liberal (a palavra tem sido muito maltratada). O caminho estava aberto para Lisboa e as tropas liberais entram na capital no dia seguinte (daí o nome da Avenida). A história oitocentista de Portugal tem sido muito esquecida. Os “senhores que se seguem”, os republicanos de 1910, queriam fazer esquecer os que os antecediam e que tinham derrubado pela força. Além disso não eram assim tão diferentes deles, tratava-se de uma monarquia constitucional. O Salazarismo era, claro, antiliberal e, além disso, tudo o que cheirasse a conflitos internos abalava a ideia de “União Nacional”.
O esquecimento da história oitocentista também levou consigo a Batalha da Cova da Piedade que, travada a 23 de julho de 1833, abriu caminho aos liberais para Lisboa que foi ocupada sem luta, e ao Portugal moderno. Foi a partir desta data que se fizeram as grandes reformas liberais que chegaram à estrutura da propriedade, à organização administrativa. Aboliram-se impostos, nacionalizou-se os bens da coroa e da igreja, enfim libertou-se Portugal de estruturas arcaicas e seculares para entrar na modernidade. É, pois, uma data fundamental da História de Portugal, pois abriu caminho a transformações fundamentais.
Portugal não tem uma grande tradição de centros de interpretação de factos e momentos históricos, também não a tem em relação à recriação de batalhas. Aljubarrota e Vimeiro são dos poucos exemplos. Noutros países estes são comuns, um dos meus planos é assistir à reconstrução da Batalha de Bosworth Field em Inglaterra, aquela onde Ricardo III teria dito as suas últimas e famosas palavras: “Um cavalo, o meu reino por um cavalo”. Já estive no centro de interpretação da batalha, uma hora a pé da paragem de autocarro mais próxima, e no de Ricardo III, o rei cujo corpo foi encontrado num parque de estacionamento em Leicester. Mesmo sendo uma das personagens mais detestadas da História de Inglaterra, o centro de interpretação é muito visitado e um importante recurso turístico e educativo.
Almada tem as condições, e até os espaços, para um centro de interpretação da Batalha de 23 de julho e para fazer da sua recriação um acontecimento importante. Também tem condições de fazer mais, continuo a achar a nossa história local pobre e pouco focada. Uma bolsa de estudo para teses académicas centradas neste assunto seria uma forma de a elevar.
No fim de semana passado, o Vimeiro, pequena localidade onde se travou uma batalha importante da Guerra Peninsular (Invasões Francesas), animou-se com a recreação dessa batalha. Para os que lá estiveram foi como ter ao vivo uma obra como o famoso, e excelente, “Le Dimanche de Bouvines” de George Duby, sobre a batalha do mesmo nome em 1214.
Este era investimento real na história, na identidade e na cultura, coisas que têm falhado, e que não se podem confundir nem com tentativas recentes e disparatadas de criar “novas identidades”, nem com um repetir de escritos antigos, sem uma verdadeira investigação.
Almada Online, Batalha da Cova da Piedade, Crónica, história, Identidade, Nuno Pinheiro, Opinião


