Cova da Piedade – Luta e resistência
Com a aproximação à capital, as tropas liberais encontram resistência absolutista na zona da Cova da Piedade. O exército liberal enfrentou as tropas miguelistas comandadas pelo General Teles Jordão. Apesar da inferioridade numérica, a moral e organização das tropas do Duque da Terceira ditaram a derrota dos absolutistas.
No próximo dia 23 de Julho passará mais um ano sobre a Batalha da Cova da Piedade que ocorreu a 23 de Julho de 1833, uma batalha com 193 anos.
Dizem os historiadores – eles são os verdadeiros heróis do estudo e pesquisa do passado, só assim podemos viajar por estes caminhos, que de outro modo seriam apenas terrenos do desconhecido – que terá sido um confronto militar breve, mas de enorme importância estratégica, este combate que opôs os liberais, defensores de D. Pedro IV e da carta constitucional; aos absolutistas, defensores de D. Miguel.
No verão de 1833, as forças liberais estavam cercadas no Porto. Uma expedição liderada com audácia, mas também em desespero, pelo Duque da Terceira, António José de Sousa Manoel de Menezes, que desembarcou no Algarve e marchou em direção a Lisboa, surpreendendo as forças miguelistas.
Com a aproximação à capital, as tropas liberais encontram resistência absolutista na zona da Cova da Piedade. O exército liberal enfrentou as tropas miguelistas comandadas pelo General Teles Jordão.
Apesar da inferioridade numérica, a moral e organização das tropas do Duque da Terceira ditaram a derrota dos absolutistas. Teles Jordão acabou por falecer. Este acontecimento marcou uma época de luta e resistência, e para a recordar ficou-nos o Coreto do Jardim da Cova da Piedade, cuja construção guarda um grande simbolismo político e histórico, e onde pode ler-se o que aqui replico.

Se 23 de Julho 1833 foi importante pela vitória liberal, o dia 4 de Março de 1893 foi igualmente importante, pelo nascimento da Sociedade Cooperativa Piedense, vitória da união dos trabalhadores que sem recurso a armas, mas no caminho da luta e resistência, levantaram uma grandiosa obra talvez a maior Cooperativa de Consumo da Península Ibérica.
Em homenagem aos seus fundadores relembro aqui os seus nomes:
Amélio Annes – Caixeiro
João Auguesto Silveira – Carpinteiro
José Marques da Cruz – Operário
Germano Àlvaro de Almeida – Operário
Manuel Gomes Rodrigues – Tanoeiro
Eugénio de Sousa – Sapateiro
João de Almeida – Operário
José Nunes dos Santos – Sapateiro
Duarte Joaquim Jesus – Tanoeiro
Manuel Antão Júnior – Corticeiro
Estes homens, perceberam que para combater a pobreza e a exploração os trabalhadores tinham de unir-se para garantir bens de consumo (como alimentação e vestuário) a preços justos, sem dependerem da especulação dos patrões e dos intermediários. O facto de ter chegado a ser considerada a maior cooperativa de consumo da península ibérica, prova o sucesso estrondoso dessa solidariedade.
Igualmente importante, a marcar uma época de homens de grande iniciativa e de grande valor, já a 23 de Outubro de 1889 tinha sido fundada a SFUAP – Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, uma coletividade de referência nesta terra de luta e resistência, que o foi e continua a ser até aos dias de hoje.
A Sociedade Cooperativa Piedense e a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, complementaram-se numa identidade operária e associativa do final do século XIX, representando para a margem sul do Tejo uma marca de resiliência e consciência social ao longo do século XX.
O papel da Cova da Piedade não se esgota nestas duas coletividades, nesta crónica apenas pretendo destacar a sua grande importância, sem esquecer todo o património associativo existente nesta terra.
A Cova da Piedade é apenas um exemplo da iniciativa do associativismo, num concelho cheio de grandes exemplos de coletividades centenárias. O associativismo enfrenta novos desafios e dificuldades nos dias de hoje, mas ainda conta com homens e mulheres, dirigentes associativos, que continuam a acreditar na importância das coletividades, e que apesar das barreiras que vão surgindo não desistem deste ideal nem do respeito que os nossos antepassados merecem.
Almada Online, BE, Crónica, Luís Filipe Pereira, Opinião


