A Greve de Dezembro

Num país que é dos que menos greves faz na Europa, o anúncio de uma greve geral colocou o assunto na ordem do dia. Falou-se muito sobre o que é uma greve, para que serve, quem pode fazê-la, se foi um sucesso ou um fracasso, mas pouco sobre greves de outros tempos.

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A greve geral de 11 de dezembro não foi a primeira desde o 25 de abril, muito menos a primeira a fazer-se em Portugal. É verdade que foi a primeira há mais de uma década, mas a democracia conheceu outras. Porém é preciso não esquecer que as greves estiveram proibidas em Portugal durante quase meio século, o que não quer dizer que não se fizessem, os riscos e os custos é que eram eram mais elevados. 

A primeira greve registada como tal em Portugal deu-se em 1849, foi feita por operários da zona industrial do Conde Barão (em Lisboa), na defesa de algo que hoje vemos de forma negativa: o trabalho de Sol a Sol. Nessa altura, quando os dias eram mais curtos, havia trabalho ao serão e foi contra isto que se fez esta greve. Ao fim de dez dias foi vitoriosa. Porém, uns anos mais tarde, em 1872, o problema colocou-se novamente. 1

Temos aqui uma das razões das greves, horário de trabalho. O passo seguinte foram as greves pelas 8 horas de trabalho diário que obedeciam a uma lógica interessante: 8 horas para trabalhar, 8 horas para descansar e 8 horas para viver. Esta foi uma das mais importantes lutas e vitórias do movimento dos trabalhadores. 

Não será este o único motivo para as greves, a questão salarial será ainda mais importante, em março de 1911, as operárias das fábricas conserveiras de Setúbal reivindicavam ganhar 50 reis por cada hora de trabalho, independentemente de ser dia ou noite (na altura ganhavam 40 de dia e 50 de noite), quando duas operárias foram mortas pela recém-formada Guarda Nacional Republicana. Isto despoletou uma vaga de protestos e um primeiro esboço de greve geral, sentido sobretudo em Lisboa e Margem Sul. 

Nesse mesmo ano, as greves dos operários corticeiros no Caramujo tomaram enormes proporções. Ameaçados de despedimento, por encerramento da fábrica, pelo patrão, o Conde de Silves, os operários não só paralisaram o trabalho na véspera do anunciado fecho, como impediram o embarque da cortiça que se encontrava pronta. As associações de corticeiros tentaram encontrar trabalho para estes operários e, face ao insucesso, todos os operários corticeiros da Cova da Piedade entraram em greve. Uma reunião com o governador civil também não teve sucesso e, nessa noite, declara-se um incêndio na fábrica em questão. Os Bombeiros tentaram apagar o incêndio, mas as mangueiras foram cortadas e a fábrica, assim como algumas habitações contiguas, arderam por completo. Acusados de sabotagem, alguns operários foram presos na cadeia de Almada que ficava no piso térreo dos Paços do Concelho. 

Estas greves marcam o fim do apoio operário ao conturbado regime republicano e, em 1917 e 1918, três greves gerais abalam o país. As duas primeiras foram movimentos de solidariedade com grevistas que foram presos na sequência de outras greves, a de 1918 foi um movimento mais preparado e organizado contra a carestia de vida e durou vários dias. Em todas o tão democrático regime republicano fez sentir a sua repressão, chegando a haver trabalhadores fuzilados. A imprensa da altura dedicou-se a, por um lado, desvalorizar os efeitos da greve e, por outro, mostrar atos de sabotagem, como comboios descarrilados. Logo a seguir à implantação da república, os aguadeiros, maioritariamente galegos, paralisam o trabalho para não serem obrigados a usar uniforme. Olhando para o passado, não podemos deixar de achar as greves de hoje muito pacificas e com menos objetivos que as de há um século.

O Estado Novo proibiu as greves (seria para isto que queriam os três Salazares), isso não quer dizer que não se fizessem, eram reprimidas, claro. A mais conhecida foi a de 18 de janeiro de 1934, sobre a qual se fala muito na Marinha Grande, mas que foi particularmente forte em Almada, onde a maior parte das fábricas paralisou, havendo confronto violentos em Cacilhas. Era uma greve contra a fascização dos sindicatos que foi muito fortemente reprimida. Muitos anarquistas e comunistas foram condenados ao degredo, primeiro em Angra do Heroísmo, mais tarde no Tarrafal, justamente chamado de “Campo da Morte Lenta”. Muitos ali morreram. Ainda durante a 2ª guerra mundial, nova vaga de greves abala o regime e desencadeia uma grande repressão, embora ficasse longe da de 1934. 

Apesar de proibidas, Salazar e Marcelo de Caetano confrontaram-se com muitas greves, e quando se deu o 25 de abril, não só abrangiam trabalhadores como estudantes, primeiro das universidades e depois das escolas secundárias. 

Vale a pena falar de algumas greves importantes noutros países. Em 1973, perante uma ameaça de despedimento de 480 pessoas, os trabalhadores da LIP, fábrica de relógios situada em Besançon (França) tomam conta da produção e, fabricam, vendem e pagam os salários e os fornecedores. Claro que houve intervenções da polícia e do governo, até da associação dos comerciantes de relojoaria. Em finais de 1974, um acordo previa a reintegração de todos os trabalhadores, o que aconteceu, mas o governo seguinte fez os possíveis por acabar com a empresa, o que acabou por acontecer, sucedendo-lhe uma nova fase de autogestão. A empresa acabaria por falir em 1977 e, se hoje se continuam a vender relógios LIP, é porque antigos trabalhadores criaram cooperativas que mantiveram o nome. Entre outros modelos, muitos clássicos da marca, é possível comprar um modelo comemorativo dos 50 anos da greve. Por cá, a seguir ao 25 de abril, houve algumas experiências semelhantes, embora mais limitadas. 

Em 1968 a Ford inglesa procedia a uma reclassificação dos seus trabalhadores. Como era hábito (e infelizmente ainda não se perdeu), as mulheres, costureiras que faziam os assentos dos carros, foram classificadas como não especializadas e, como tal, ganhando menos. As operárias não aceitaram a situação e decretaram uma greve que primeiro não foi compreendida pelos sindicatos e pelo Partido Trabalhista, mas acabou por se alargar a outros sectores da empresa e por conseguir o seu objetivo de salários iguais. Uns anos depois, no Reino Unido, essa igualdade salarial entre homens e mulheres ganhou força de lei, hoje é um princípio universal, embora a sua aplicação deixe muito a desejar. 

Nada descreve melhor a situação posterior ao 25 de abril de 1974 do que o verso de Sérgio Godinho: “A sede de uma espera, só se estanca na torrente” e, como tal, os primeiros tempos de democracia foram palco de muitas greves. Salários, condições de trabalho estiveram no topo, mas também as de estudantes a lutar por melhor acesso ao ensino e uma avaliação mais justa, até ao saneamento de pessoas suspeitas de pertencer à Pide, ou “apenas fascistas”. Houve de tudo.

Curioso é o facto de o partido hoje acusado de promover as greves, na altura ser muito anti-greves (se têm dúvidas consultem a imprensa de época). Houve mesmo, em vésperas do 25 de novembro (1975), uma greve do governo. Almada contribuiu para isso? Claro, aqui entre outras aconteceram a famosa greve da Lisnave de setembro de 1974, ou as greves nas escolas, que culminaram na ocupação e gestão militar do Liceu. 

A primeira greve geral não se deu nos tempos do PREC, mas só uns anos depois em 1982 e primeiros-ministros como Pinto Balsemão, Cavaco e Silva e José Sócrates, foram honrados com esta forma de luta contra reformas vistas como negativas. 

Muitas greves tiveram sucesso, outras nem por isso, algumas acabaram com repressão e mortes, mas é inegável que contribuíram muito para melhorar salários, horários e condições de trabalho. Como se viu em 11 de dezembro, mesmo os que as desvalorizam, os que dizem que não tiveram efeitos, foram obrigados a reconhecer-lhe a força e a importância. 

1 José Barreto, in Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.°-4.°, 479-503

Nuno Pinheiro

Doutorado em História Moderna e Contemporânea, Investigador associado do CIES/ ISCTE, almadense

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