Almada entre a continuidade e a rutura: o significado político do novo acordo PS–CDU
A política em Almada entrou num novo ciclo. Depois de anos marcados por instabilidade, orçamentos chumbados e alianças frágeis, o concelho volta a ter uma maioria estável no executivo municipal, desta vez construída entre o PS, que mantém a presidência da Câmara, e a CDU, que regressa ao centro da governação.
Para muitos almadenses, este entendimento pode parecer um regresso ao passado; para outros, representa simplesmente a única forma de garantir previsibilidade e funcionamento regular dos serviços públicos. A verdade é que nada disto pode ser compreendido sem olhar para a história política do concelho.
Almada foi durante décadas um bastião da CDU, com uma identidade municipal profundamente marcada pelo associativismo, pelos serviços públicos e por uma cultura de esquerda enraizada. A vitória do PS, em 2017, foi vista como uma rutura simbólica — a promessa de modernização e de uma nova forma de governar. Mas essa rutura nunca foi total: a CDU manteve sempre um peso social e eleitoral significativo, e a política local continuou polarizada entre estas duas grandes forças políticas à esquerda.
O mandato anterior, marcado por um entendimento tenso entre PS e PSD, deixou feridas visíveis. O episódio do orçamento chumbado e a perda de pelouros por parte de um vereador social democrata mostraram que a solução não tinha solidez. É neste contexto que surge o novo acordo PS–CDU, agora formalizado e assumido publicamente, e que devolve à esquerda almadense uma maioria absoluta de sete vereadores em onze.
Este acordo distribui responsabilidades de forma clara: o PS mantém a presidência e a liderança política global, enquanto a CDU assume pelouros estruturantes, incluindo a presidência dos SMAS, entregue ao vereador Luís Palma. Esta escolha não é inocente.
Os SMAS são, historicamente, uma das áreas onde a CDU construiu a sua reputação de competência técnica e proximidade aos cidadãos. Ao recuperar este dossiê, a CDU reforça a sua ligação às bases sociais e volta a ter um papel direto na gestão de serviços essenciais como água e saneamento.
Para o PS, o acordo representa estabilidade. Evita a dependência de uma direita fragmentada e imprevisível, e garante condições para aprovar orçamentos, lançar investimentos e evitar novos impasses. Para a CDU, é uma oportunidade de recuperar influência e visibilidade, depois de ter perdido a presidência da Câmara. Mas o acordo não está isento de riscos: o PS arrisca ser acusado de “voltar ao passado”, enquanto a CDU pode ser vista como força auxiliar em vez de alternativa.
A oposição (PSD, Chega e outras forças) já começou a explorar estas tensões. Algumas vozes classificam o acordo como um “desrespeito ao eleitorado”, argumentando que distorce a vontade expressa nas urnas. Mas, no sistema autárquico português, os acordos póseleitorais são parte integrante da lógica institucional.
O que realmente importa aos cidadãos é outra coisa: se a cidade funciona, se os serviços melhoram, se as obras avançam, se a limpeza urbana se torna mais eficaz, se a mobilidade deixa de ser um problema diário.
O futuro político de Almada dependerá menos da engenharia partidária e mais da capacidade de PS e CDU trabalharem em conjunto. A gestão dos SMAS será um teste decisivo: qualquer falha terá impacto imediato na perceção pública. Mas, se o acordo produzir estabilidade, investimento e melhoria dos serviços, poderá ser visto como um passo pragmático e necessário.
Almada vive, assim, entre a continuidade e a rutura. Entre a memória de um passado dominado pela CDU e a promessa de um futuro liderado pelo PS. Entre a crítica fácil e a responsabilidade de governar. O novo ciclo político está apenas a começar — e será julgado, como sempre, não pelas intenções, mas pelos resultados concretos na vida dos almadenses.
Almada Online, Crónica, Opinião, Pedro Dias Pereira, PS


