Depressão Leonardo: 57 pessoas retiradas de casa em Almada
Desde 2023 que as arribas em risco e os perigos do galgamento marítimo são conhecidos
Pelo menos 35 pessoas tiveram de ser retiradas das suas casas no concelho de Almada, devido a deslizamentos de terra ou galgamento marítimo, disse na Quarta-Feira 4 de Fevereiro, a presidente da autarquia. A este número acrescem os 22 utentes de um lar na Charneca da Caparica.
Em conferência de imprensa, Inês de Medeiros, explicou que os deslizamentos de terra nas arribas são uma das grandes preocupações “Estamos com problemas, como viram, de deslizamento de terras, que é a nossa grande preocupação, porque está tudo muito encharcado”.
Na Costa da Caparica, explicou, São João e Santo António são as zonas onde têm ocorrido os maiores deslizamentos de terra, “sem danos de maior”, tendo as pessoas sido “convidadas a sair”. “Felizmente, muitas destas casas são segundas habitações, portanto, à partida, muita gente não estava cá, mas houve, de facto, pessoas que foram retiradas, embora não precisassem de serem realojadas pela Câmara“, disse. Essas pessoas foram para casas de familiares ou habitação própria.
Inês de Medeiros adiantou que numa outra zona, na Azinhaga dos Formozinhos, perto de Porto Brandão, foram retiradas quatro famílias, tendo duas delas sido realojadas pela Câmara Municipal de Almada (CMA)
Na zona do Segundo Torrão, na Trafaria, devido ao galgamento costeiro, “tiveram de ser retiradas duas famílias com cerca de 10 pessoas e, na Cova do Vapor, as vias de acesso foram cortadas, estando no local equipas de vigilância”, disse ainda a autarca.
Os 22 idosos que tiveram de ser retirados de um lar na Charneca da Caparica, depois do muro de um lote adjacente ter desabado sobre o edifício, foram realojados num outro lar em Setúbal.
Além destes casos, a presidente fez também referência à queda de parte do muro do Seminário de Almada, na noite de Terça-Feira, que danificou viaturas, e ao abatimento de parte da zona do cais do Ginjal que não tinha sido requalificada. Para a autarca, o abatimento de terras na zona do Ginjal registado esta Quarta-Feira “prova bem a urgência” da intervenção realizada no Cais do Ginjal. “Ainda bem que o fizemos, porque senão a situação poderia ser muito mais complicada“, disse.
Portugal continental está ainda ser afectado pela depressão Leonardo, prevendo-se que concelho continue sob alerta laranja até Domingo, altura em que está prevista a chegada da depressão Marta, com chuva persistente e por vezes forte, vento e agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Em 2022 foram sinalizadas 12 arribas em risco no concelho
Foi isso que Inês de Medeiros afirmou na reunião da Câmara Municipal de Almada a 6 de Março de 2022, onde disse também, que as intempéries de Dezembro desse ano, deixaram em risco várias zonas de arriba no concelho, sendo que 12 estavam em maior risco e terão intervenção prioritária, não sendo a totalidade das zonas em risco no concelho. Enumerou-as: “a vertente de Olho de Boi, Olho de Boi poente, Quinta da Arealva, Banática Poente, Porto Brandão Nascente, Porto Brandão Poente, Abas da Raposeira, Encosta do Pica Galo, Arriba Fóssil da Costa da Caparica, Arriba Fóssil Via Panorâmica, Entrada da Foz do Rego e, o Bairro do Foni.”, acrescentando ainda que “Há outras zonas, estas foram onde depois das intempéries se concluiu que o risco era maior.”
Esta declaração foi feita depois das intempéries de Dezembro de 2022, que a 13 de Dezembro, provocaram a derrocada de uma pedra de grandes dimensões proveniente da arriba sobranceira à Banática. Não houve feridos, apenas uma viatura totalmente danificada, e a zona foi nessa data declarada como zona de risco pela protecção civil de Almada. O pedregulho de grandes dimensões ainda se encontra no local. O carro foi retirado do local a pedido do proprietário, às suas expensas, pois foi-lhe dito pessoalmente “não ser nada com a CMA”.
As arribas de Olho de Boi, foram apontadas pela autarca na mesma reunião, como sendo as que têm maior perigosidade, mais ainda que arriba da Banática. Como em Olho de Boi já existiam à época estudos prévios efectuados, a autarca disse que se ia passar directamente “à contratação de um projecto de execução de sustentação daquela zona da arriba.”, com nível de urgência, acrescentou Inês de Medeiros.
“A situação das arribas torna-se ainda mais complexa pois nem todas são municipais por excelência, existem arribas da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), outras são titularidade da própria CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo), outras do Porto de Lisboa“, outras ainda de proprietários privados, frisou a autarca na mesma reunião.
Para as outras zonas de arribas em risco, onde está incluída a Banática, apesar de também ser considerada prioritária, foi lançado um procedimento com nível de urgência: um concurso público para aquisição de serviços de elaboração de um estudo geomecânico de estabilidade de vertentes e arribas do concelho de Almada.
Os estudos geomecânicos foram efectuados no território e custaram 1,7 milhões de euros (valor sem iva) ao erário público. Os contratos podem ser consultados aqui e aqui.
Até hoje apenas a arriba do Ginjal, na vertente perto de Cacilhas, foi intervencionada pelo proprietário dos terrenos (Grupo AFA) quando procedeu à demolição do edificado que se encontrava em risco de ruir, em 2024.
Em 2023, foi também efectuado o “Estudo de impacto de inundação e de galgamento costeiro e estuarino do Município de Almada – Cartografia de Inundação e Fases de Adaptação”, encomendado pela CMA ao Departamento de Engenharia Geográfica, Geofísica e Energia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O estudo foi apresentado a alguns funcionários de várias divisões da CMA a 20 de Março de 2024, sendo o seu objectivo “delinear estratégias e acções concretas de desenvolvimento, de adaptação e de mitigação de riscos”.
O Almada Online pediu cópia desse estudo ao engenheiro Carlos Manuel Correia Antunes a 22 de Março, um dos seus autores, que nos informou que “como é um estudo sob contrato, estamos obrigados a sigilo profissional, pelo que não poderemos revelar resultados. Mas esperamos que a CMA os venha a divulgar publicamente. Mas nós certamente pretendemos, depois de autorizados, publicar em revista científica”. O seu conteúdo nunca foi tornado público até hoje. Pode visualizar-se num portal os resultados de outros estudos, sobre o mesmo assunto, efectuados pela mesma equipa em várias partes do país.
As arribas que ruiram agora com a passagem da tempestade Katrin e da depressão Leonardo, na Costa da Caparica e em Olho de Boi, estavam sinalizadas como em risco de ruir desde 2023. Os galgamentos costeiros no 2º Torrão, na Cova do Vapor e na Costa da Caparica também. Por muitas entidades que sejam responsáveis pelo território, para além da CMA, e por muito imprevisíveis que sejam as alterações climáticas e as suas consequências, houve tempo para implementar medidas de prevenção no terreno, por forma a assegur a segurança da população residente nessas áreas. Caso tivessem sido realizadas atempadamente, ter-se-ia evitado muitos sustos, danos materiais e custos, mais uma vez do erário público.
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